Revista Êxito na Educação

"O pé simplesmente não dá mais no sapato"

Retrato de Jorge Veschi. Acervo do autor

 

JORGE LUIZ VESCHI é psicólogo, psicanalista, Mestre e Doutor em comunicação, membro da diretoria do Espaço Brasileiro de Psicanálise. Livros publicados: Caos Sensível, Nas Espumas do Tempo, Nietszche e Freud: a Morte de Deus e o Assassinato do Pai, Mídia e Identidade Pessoal. e-mail: O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. , websites: www.clinicaepsicanalise.com.br, www.ocidenteorienteemedio.com.br.

 

Êxito na Educação - As últimas manifestações de junho de algum modo lembraram conceitos desenvolvidos por você em seu "Caos Sensível". Como você definiria este momento de crise das representações?

Jorge Veschi - O sentimento - ou a impressão - de caos diz respeito à maneira como a razão apreende as condições de início, de fluxo, de vida, e o poder ao ‘lado escuro de sua força”.
O início, o fluxo e a vida se compõem de múltiplas linhas de força e potências em conflito e em ambiguidades. Estas condições ameaçam a razão e o poder. O próprio poder precisa “criar” as ameaças que o sustentam e não pode deixar de se alimentar daquilo que consome outros.
Usualmente a vivência do caos diz respeito a um desvelamento de condições de origem, já o poder tem como principal característica a criação de uma área de ilusão em torno de si. Por que Napoleão, um grande estrategista que estava conquistando a Europa, decide invadir a Rússia perto do inverno? Por que os troianos, depois de conseguirem resistir aos ataques dos gregos por muitos anos devido à presteza de suas muralhas, decidem abrir uma brecha na muralha para colocar para dentro um cavalo deixado de presente pelos inimigos? Por que os Estados Unidos, ocupando o lugar de potência máxima no mundo, decidem se envolver em conflitos que vão arrasando com sua reputação e economia?

O poder não pode deixar de criar esta área de ilusão a partir da qual deixa de interpretar a realidade e supõe-se soberano. Esta razão fundamental do prazer no poder, corresponde também ao seu ocaso. Este ocaso, o qual tende a ser interpretado como oriundo de um caos, diz respeito às condições geradas pela natureza do poder. Se formos considerar o que sabemos sobre nossa condição humana e sobre o que aprendemos com a história, podemos dizer que, de forma mais ou menos inconsciente, todo poder pretende seu ocaso, e o promove à sua maneira.

Êxito na Educação - Significa que manifestações desta envergadura expressam a transformação rumo ao declínio - ou como você diz, ao ocaso - do poder tal como está estabelecido?

Jorge Veschi - As manifestações expressam condições de início e de pessoas vivas. Como estamos vivos, estamos sempre em transformação. Quando estamos nos desenvolvendo fisicamente, vamos usando o mesmo sapato durante um tempo, depois o pé chega a um ponto em que o sapato precisa ser trocado – e não o pé ser cortado. A sociedade é viva e está sempre se transformando, se aqueles que a administram não acompanham estas mudanças, o desfecho se torna inevitável.

Esta situação que vivemos expressa as consequências de uma ‘guerra’ entre sociedade e Estado, entre as quais não existe um pacto por aqui. A sociedade vive o Estado como inimigo e o Estado vive a sociedade como campo de extração de recursos para sua manutenção. Quem faria o pacto seriam as pessoas da sociedade que comporiam os agentes dos 3 poderes – políticos, magistrados e oficiais – porém, estas pessoas, ao passarem a fazer parte do estado, rompem com sua identificação com a sociedade, não se consideram mais ‘povo’, passam a se sentir como ‘de outra estirpe’, do ‘Estado’. Estas condições não podem persistir ao infinito sem expor sua crise. Esta crise, como quando uma situação é percebida como caótica, exprime a base mesma daquela situação e não um estado extraordinário.

Entropicamente, quando um sistema entra em crise, tende-se a preservar sua evolução dentro da crise. O que vivemos nas manifestações? Um grande número de pessoas protestando em paz sendo atacadas duramente pelas forças do Estado, enquanto poucas outras vandalizando sem nenhuma ação das forças do mesmo Estado. Por um lado, dentro de um regime que chamamos de caos, ou de início, existem forças fractais, existem pessoas de várias naturezas, objetivos e estratégia de lidar com o problema. Se fosse possível um ordenamento, não haveria a crise, se o estado soubesse como lidar com a situação, não haveria a crise. Por outro lado, a estratégia do Estado é de apavorar as pessoas pacíficas com a violência da repressão, deixar apenas a minoria inflamada para depois ‘eliminá-la’. Esta estratégia poderia ser vigente, se o motivo da crise não fosse real, se a sociedade não estivesse expressando com isso a impossibilidade de se manter nas condições nas quais estava. O pé simplesmente não entra mais no sapato.

A razão e o Estado apostam em uma realidade iluminista, uma crença em que aquilo que se sabe, que se diz e se explica vai funcionar e corresponde efetivamente à realidade e à vida enquanto tal. Esta crença evolui para o sentimento de caos, quando as áreas de sombra se mostram vigentes junto com a iluminada, como a própria iluminação gerar sua sombra, sua ameaça. Vemos que o estado procura ganhar tempo, dar explicações e ‘endemoniar as sombras’. Na época em que lutávamos contra a ditadura, éramos acusados de ser contra o Brasil; atualmente, aqueles de nós que estão aqui, cooperam cada um com o Brasil, nunca fomos contra o Brasil. Lutávamos porque somos brasileiros.

A crise das representações dos agentes do Estado, se deve ao fato destes romperem com sua identidade de origem, com sua pertinência à sociedade, se tornando exclusivamente agentes do Estado. Ao fazerem esta ruptura, eles deixam automaticamente sua função de representantes, rompe-se imediatamente a possibilidade de um pacto entre sociedade e Estado, que procura espoliar a sociedade e esta procura espoliar o Estado. O que vivemos agora é um limite desta guerra fria, onde as partes do confronto vêm à tona. Portanto, por um lado, temos a crise da representação que se deve ao fato de o representante social romper com sua identidade social, passando a visar aos seus próprios interesses e se identificando enquanto Estado; Platão já tinha advertido na Grécia antiga sobre o principal risco da democracia ser a tendência da profissionalização de seus agentes. Agora, por outro lado, temos o que se deve ao incremento dos ‘agentes de singularização’, dos quais as mídias e a tecnologia são os mais importantes; o incremento da singularização faz com que frequentemente sintamos dificuldade em encontrar uma palavra para representar o que sentimos ou pensamos, com que duas pessoas que se relacionem não consigam se ver representadas pelo que a outra pensa, sente ou deseja. Sendo assim, como seria possível que uma pessoa pudesse representar uma comunidade ou uma coletividade?

Êxito na Educação - No seu "Caos Sensível" você coloca que a lei e, ainda mais profundamente, a própria linguagem estrutura-se a partir da necessidade de racionalização do caos. O Estado, e a Escola, por exemplo, podem prescindir desta voraz necessidade de controle e tornarem-se porosos, permeáveis a um modo mais cogestivo e não hierarquizado de "fazer política"? Como negociar com movimentos sem liderança?

Jorge Veschi - Dizem os que nem todas as mãos do mundo conseguem segurar o vento. Nem toda lei, nem todas as palavras reunidas podem segurar a vida e o real enquanto tal.Isso está também intimamente ligado à ameaça quanto ao caos: e quando o que achávamos se mostra falho? Quando nossos sonhos se tornam pesadelos? Quando a razão se torna delírio? Quando não conseguimos nos entender com nossos filhos ou nossos amores? Se diz na China: quando se mata o pai se procura o Buda, mas e quando se mata o Buda?

A mente corresponde a um artifício, a um aparato ou instrumento que ‘inventamos’ para dar conta da pluralidade de forças que nos compõe e que compõe um real qualquer. Como a inventamos, com alguma frequência podemos experimentar seus limites, suas bordas. Nem sempre esta experiência é acalentadora, com frequência origina angústias e crises.

Freud dizia que existem 3 profissões impossíveis: governar, educar e curar. Serem impossíveis significa ao mesmo tempo que correspondem sempre a tentativas, quanto ao fato de fazer parte de suas condições de possibilidades o seu fracasso. O fracasso não está fora, não se trata de uma eventualidade, ele é parte inerente das condições destas vivências. Entre os samurais dizemos que: um guerreiro que fala de suas vitórias deve estar mentindo, ou ser um covarde que age apenas em tocaias, pois como um guerreiro pode só ter vitórias se o combate já faz parte de um fracasso?”

O Estado e a Educação se tornam viáveis enquanto se mantêm ‘em aberto’, enquanto mantêm a perspectiva de que lidam com algo vivo, em transformação, em desmoronamento. Mas, como resistir ao principal prazer do Estado e da educação que é criar e impor seu próprio mundo, seus próprios valores? Conta-se que uma vez um príncipe recorreu a um mestre em retiro em uma montanha, demandando se tornar seu discípulo, pois estava destinado a se tornar o Imperador e pretendia ser um bom imperador; o mestre sorriu e lhe disse: ‘antes volte ao seu palácio e primeiro decida se você quer ser bom ou se quer ser imperador”.

O Estado e a educação não correspondem apenas às suas instituições, correspondem a micropolíticas, microeducações disseminadas por toda rede social. Tanto a macro quanto a micro agem em sincronia, oferecem ambas o prazer da soberania tendo ambas que se deparar com os limites de seus fracassos quanto ao seu objetivo a longo prazo e dentro de uma totalidade.

Nossas instituições de ensino se originaram na necessidade de se formar funcionários para as indústrias, e se mantêm dentro destes pressupostos de formar operários, funcionários e agentes para as ‘indústrias’. Não têm compromisso com a educação de singularidades, de potências e quanto ao levar adiante de atratores que não sejam genéricos.

Temos a perspectiva da lei enquanto oriunda das interações de um organismo com seu real, e a lei enquanto instauradora de seu real. Esta segunda possibilidade é a que inventa o caos como sendo aquilo que ela não legifera, como sendo aquilo que dela não padece. Quanto a esta lei, que instaura em um campo de possibilidades múltiplas uma determinação, existem os que ficam de fora dela e vêm a ser encapados enquanto doentes ou marginais, e aqueles que se colocam para além dela. Estes que se colocam para além dela são entre nós os mais problemáticos. Os agentes da lei, em todas as suas instâncias, muito geralmente não se consideram objetos da lei. Muito comumente os magistrados, oficiais da justiça e da lei têm uma visão ‘bastante particular’ da lei quanto a si mesmos; como ocorre quanto aos agentes religiosos quando se trata do pecado.

A voracidade do controle, na base destas condições e na formulação da ameaça do caos, obedece a um imperativo de gozo muito presente em nós. O exercício deste controle está amplamente disseminado pela vida humana tendo sua origem em um sentimento de que, caso tenhamos o controle, teríamos assegurado não apenas o objeto de nosso desejo, mas principalmente o prazer do controle enquanto tal.

Quanto ao relacionamento com as ausências de liderança, trata-se de uma situação das mais antigas. Quando inicialmente o homem se viu diante da natureza, sem poder controlar quando chover e quando fazer sol, onde estaria a caça ou a pesca, ‘inventou’ os deuses, os quais representava e que liderariam a natureza e se poderia controlar através de rituais e oferendas. Este é o paradigma do homem diante do real. A ‘novidade’ dos movimentos emergentes no mundo ultimamente, a nível político, diz respeito a um tipo de retomada deste estado de coisas por parte dos Estados. As mídias permitem um movimento difícil de ser interceptado pelos órgãos contra revolucionários, não existem reuniões extensas, comunicação detalhada, existe o movimento. Como envolve uma crise das representações não se torna pertinente um líder, que seria um representante. Para o poder é sempre mais fácil lidar com um líder, que pode ser ‘manipulado’ ou com quem se pode chegar a um acordo, não existe acordo com o real. O próprio movimento diz o que se pretende, não há o dizer do dizer.
O tempo de se negociar, de se entender passou, estamos na ação. O que estes movimentos de massa criam de novo e de problemático para o poder é o poder se utilizar de subterfúgios, de negociações infinitas, e a massa não permite este tipo de manejo. Quando os líderes evocam sobre lideranças, na verdade querem tempo para ver se o movimento cessa, porque de fato está dito tudo o que se pretende, e o estado sabe muito bem disso.

Êxito na Educação - O que, a seu ver, deve o educador do século XXI refletir para dar conta - como um certo agente da norma e do Estado que é - desta nova forma de organização que acena tão próxima a nós?

Jorge Veschi - Com a aceleração da informação e dos dispositivos de singularização, a educação precisa se reinventar para além da informação. Classicamente a educação se faz identificar com o manejo e o passe da informação, porém isso já está dado, as informações estão por aí, cada vez mais.

A pressão das singularidades fazem com que a educação tenha que se desidentificar do Estado. O que está implícito nas crises e demandas feitas ao Estado quanto à educação trata-se dos prenúncios de se perceber a falência deste Estado, sua incapacidade de lidar com as singularidades.

Já se pode divisar bem como a ordem política, o Estado como um todo, se encontra na dependência da ordem econômica, a qual não é local. Portanto, não existem mais centros de controle. Os Estados ainda ficam nostálgicos quanto ao seu sonho de controle, mesmo os serviços de inteligência, procurando monitorar as redes de comunicação, ainda procuram alimentar a perspectiva do Leviatã. De fato, trata-se, como diz a música, ‘daquilo que nunca teve controle nem nunca terá’.

Existe o que chamamos ‘espírito do tempo’, ou ‘o movimento da história’. Os impérios foram caindo sob o peso das revoluções em uma determinada época, enquanto expressão do movimento da história. Agora, a história se move na direção de uma não-localidade, da força das singularidades que podem emergir em pontos imediatos e imprevisíveis. Em poucos dias, ditadores vieram por terra, regimes caíram sem mais nem menos, mas determinados pelo esgotamento de suas condições de possibilidades.

A juventude está se dando conta de que ‘os cordeiros criam os lobos’, e não estão mais querendo ser predados pelas matilhas que a própria sociedade fomenta.

O educador passa a ter que se haver com pessoas que têm acesso à informação, que passam a compor grupelhos e ‘matilhas’. O desafio da educação requer uma reflexão ligada a questões afetivas, éticas, sobre a convivência. Como a educação ainda não se reinventou, a juventude se encontra em um hiato, em um tipo de errância, ameaçada pela falta de recursos e de trabalho, sendo preparados para um mundo que está prestes a deixar de existir. É preciso que os educadores se atualizem, para educar as pessoas para o mundo que está emergindo, este mundo que, ao emergir, gera o sentimento do caos.

Comments   

 
0 #4 bosh 2014-02-18 13:15
Thanks for sharing such a nice idea, article is pleasant, thats why i have read it fully
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0 #3 Lucia 2013-11-18 17:29
muito bom
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0 #2 Ricardo Paes, editor 2013-08-20 15:52
Grato pelo comentário, Felipe! Perdoe pela inserção indevida do [inapropriado] a cada sílaba 'da' de seu texto. Vamos corrigir isso! De qualquer modo, e mais uma vez, gratíssimos!
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0 #1 Felipe Paes Leme 2013-08-10 01:08
Extremamente construtivas as reflexões apresentadas. As referências fundamentais não se inserem mais no mundo por hierarquias caducas, moldadas pela modernidade e suas forças de coerção/control e. Existe uma nova zona de autonomia global que ataca ferozmente o engessamento da vida . Novas práticas sociais estão sendo adotadas diariamente, num aprofundamento daquilo que chamamos de caos, quando se enxerga como ordenamento a estrutura social que por ora desaba. Parabéns pela entrevista! As publicações só melhoram a cada nova edição. :)
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