Revista Êxito na Educação

Quem tem medo da filosofia no Ensino Médio?

Foto do escritor André Queiroz, por Ricardo PaesAndré Queiroz é filósofo, escritor, ensaísta e professor. Doutor em Psicologia Clínica pela PUC-SP e Professor Associado no Instituto de Artes e Comunicação Social da Universidade Federal Fluminense (UFF). Publicou cerca de 20 livros. Coordenador Geral do Projeto Foucault Loucura Desrazão – é autor do argumento, além de pesquisador e roteirista da Série Foucault Loucura Desrazão – uma série em 12 episódios com realização conjunta do SESC DN e da Universidade Federal Fluminense (Uff). Direção de Eryk Rocha, montagem de Renato Vallone, direção de fotografia: Miguel Vassy (em fase de finalização).

Êxito na Educação - André, para iniciar esse nosso bate papo coloco a questão "Para que serve a filosofia no Ensino Médio?"

André Queiroz - Eu diria que a filosofia deve servir para provocar o desassossego com relação a estes lugares-comuns, às imagens-clichês nas que se fundamenta, comumente, o espaço social. Em primeiro lugar, porque elege o problema como o seu quê-fazer. Qual seja isto senão voltar as coisas contra elas mesmas – contra tudo aquilo que se nos dá como assentado, naturalizado, resolvido. Desde a trivialidade, o comezinho, o ‘é isto porque é isto’, ou o ‘deve ser assim porque sempre fora desta forma desde que o mundo é mundo’ que é o modo sobremaneira como nos chegam as palavras de ordem, os juízos prévios a tanger os hábitos, a costurar nossas atitudes em direção a certa plataforma de comportamento e postura. Creio que o disparar da dúvida e, tantas vezes desde aí, o deflagrar do pensamento crítico é o que melhor poderia se esperar (e se buscar) do ensino da filosofia no ensino médio.

Êxito na Educação - Este deflagrar do pensamento crítico, o ‘disparar da dúvida’, como você diz, poderia ser dar de que forma?

André Queiroz - Menos do que propriamente um ensino de história da filosofia ou dos filósofos, e muito mais o apresentar de temas gerais que perpassem a estética, a política, a ética, a cultura, e o tomar de tudo isto sob a forma da problematização - o pensar por meio de problemas; o tomar as coisas desde o cerne delas, inquiri-las desde aí  (eis o 'pensar do pensamento') - inserindo a suspeita onde se estirava a crença, enxertando o suspenso onde era o aprumo do mundo. Eis uma parte da questão que me colocas. Outra metade seria a de situar a isto que estou elegendo como a formulação do filosófico na grade de disciplinas do ensino médio, ainda uma valia, esta mesma que elenquei? Creio que sim. Sobretudo porque deveríamos nos perguntar pelos modos como trabalhamos o ensino, a aprendizagem em nossos cursos de ensino médio.

Êxito na Educação - Não caberia então a pergunta “a que serve o Ensino Médio?”

André Queiroz - Sim, e isto é algo que me parece bastante básico: a que se presta o ensino médio? Por vezes, grosso modo, arriscaria dizer que há todo um caldo de cultura que norteia o ensino médio a partir do paradigma do vestibular, ser ou não ser aprovado. E um bom curso seria, neste registro, aquele que habilita ao bom desempenho a esta prova. For o caso isto – tão somente isto, tão mesquinhamente isto, ainda assim, poderíamos dizer que o ensino da filosofia tenderia a ser produtivo. Isto porque um bom ensino dos temas filosóficos (e do filosofar) acaba por render uma significativa melhora na decifração de um texto, seja ele qual for. Como se estivesse a formar um leitor, um leitor atento e inquiridor. O rebatimento disto junto a outras disciplinas é bastante satisfatório. Todavia, creio, há um malefício aí, e eu digo, na justa medida em que estará sendo formado este bom leitor que problematiza, este estudante crítico que tomasse a si a tarefa do processo de aprendizagem sobretudo como apreciação, como avaliação do que se está aprendendo e, uma vez isto, ou melhor, uma vez as lentes multifocais desta aprendizagem, este estudante, inevitável, ele se voltará a questionar o porquê de o paradigma de seu curso, e de sua devoção a ele deva ser o funil de algo como o vestibular. Ele, na certa que, se voltará a perguntar não mais e tão somente pelo que se presta a ser o ensino médio, mas ele se perguntará porque é que em determinado momento o norte a este ensino se tornará isto que se lhe dá como o seu norte, uma prova. Porque saberá ele, eu creio, que não é uma prova o que servirá para a medição de um percurso. Talvez ele se pergunte pelas razões a que um percurso ele deva ser avaliado sob a forma de medidas suposto formais e unificadas. Sobretudo porque um percurso é ele mesmo o que não para de escapar, e o quanto mais se anda em sua busca mais serão as chances de o percurso ele se alongar. Ou seria de um outro modo os jeitos ao ‘certo’: modos que sugerissem que o percurso, o melhor dentre todos é o que mais o encurta, o que sugere que de um ponto a outro seja a reta a distância a palmilhar? Mas será assim? E então, para quê a literatura se ela é bem mais e bem outro do que o que se nos dispõe entre sujeito verbo e predicados? Para quê então a história se ela nos deve chegar bem mais enviesada do que seria se ela se nos desse tão somente pela narração do acontecido, datas e lugares? E então, para quê a biologia se o organismo não é a planilha na que o corpo se molda em ossos e musculatura, em comandos e funções, mas tantas vezes em esquecimento e memória, em transformação e recuo? Talvez este estudante crítico, tomado ao assalto pela descrença primeira, moto-contínuo da crítica (e não do quietismo), ele comece a juntar os cacos soltos (e recalcados) pelo caminho. E perceba que o vestibular – este medidor da qualidade, esta forma de ISO regulador, é tão somente a expressão de um golpe certeiro a atender os interesses privados aplicados à educação como mercado de bens e serviços. Necessário ainda dizer quem tem medo da filosofia no ensino médio?

Êxito na Educação - Dentro desta lógica de mercado, de mercadorização do ensino, onde e como pode a filosofia inserir-se sem enredar-se nas múltiplas formas de pasteurização a que acaba por se enquadrar nas práticas em sala de aula? Faz-se possível “burlar”  esse enredamento de que o sistema se vale e captar alianças entre os alunos nesta empreitada crítica onde todo o sistema de ensino com suas “disciplinas”, sua “grade” (para sublinhar o aspecto normativo da escola) possa ser criticado e, enfim, transformado?

André Queiroz - Pois esta é uma questão que me parece fundamental, até mesmo porque ela requer que pensemos dentro de uma perspectiva tático-estratégica. Será se pode estar inserido sem se deixar enredar? Muito fácil e rápido seria evocar a tarefa ‘micropolítica’ de estilhaçar em variegadas partes os campos de uma ação de resistência. Estou a pensar em certa leitura que se faz (e que se promove a partir desta leitura), em terras brasilis, do pensamento de um autor como Michel Foucault. E claro está, uma vez a incidência desta leitura, e da incidência desta práxis, que a resposta a tal questão seria a de que sempre haverá a valia, e mais do que isto, a de que sempre se estará a atuar da melhor maneira quando se está a buscar os pontos vários de ações fragmentárias, específicas e pontualíssimas. Certo, certo. Difícil desmantelar este argumento-práxis sem tecer um juizo um tanto grave, e então, em decorrência disto, podermos abrir frentes outras de reflexão. Comecemos pelo juizo grave, hipercrítico: creio que há, sobretudo, a esta leitura do pensamento foucaulteano algo como uma predominância da visada liberal. Noutros termos: promoveu-se, ou se sobrepôs, à recepção do pensamento foucaulteano no Brasil, a leitura liberal. No que podemos apontar esta promoção, esta investidura: na indicativa sobremaneira de que o ‘lugar’ e ‘modo’ de ação-intervenção seja o micropolític(o). Não propriamente a micropolític(a) tal como Foucault sugeria. Mas o micropolítico como o específico, o pontual, o setorial, ou o situado/sitiado dentro de uma lógica que, comumente, o embarga, o envelopa, o neutraliza. Claro está que aqui já estou a tecer a minha crítica. E digo isto quanto a potencialidade daquilo que se estaria a promover. Se insisto que seria aquela leitura do pensamento foucaulteano uma leitura liberal é porque ela se permite despregar diversas partes de um jogo que é orgânico. Permite atuar e buscar atuar a um nível que, mesmo e tantas vezes, esta atuação é empregada numa dinâmica que não esgarça quaisquer contradições, ou exponha até às vísceras aquilo a que se pretende combater. Pelo contrário, inúmeras destas ações ao micropolítico acabam por estar sobreinvestindo a própria lógica sistêmica - e dou como exemplo: ações que têm investimento (custeio operacional e logístico) seja ao que se costumou chamar de 3º Setor, seja desde planilhas orçamentárias do Estado. Curioso isto! Curioso que se pretenda tecer uma crítica e uma ação militante de resistência e recusa quando se está a operar sob a tutela dos investidores. Por vezes, editais de fomento, noutras vezes, verba de investimento à pesquisa advindas de grupos absolutamente comprometidos com o status quo.

Êxito na Educação Você se refere aqui aquela agenda liberal a que países periféricos são compelidos a cumprir, aceitando programas, materiais didáticos, ditames sobre o que e como ensinar e aprender e que nos chegam de organizações internacionais terceirizadas e capitaneadas pelos interesses da corporatocracia internacional?

André Queiroz - Também a isto, mas também ainda menos do que a isto. Menos no sentido mais comezinho, mais caseiro em relação ao cozimento dos compromissos, dos acordes no que se está a operar... Sempre se nos retorna a questão sobre o como se poderá esgarçar o presente a que se está, como se poderá criar novos modos/um outro do mundo se se barganha junto a setores nos que a última coisa que se planeja (ou se vislumbra) é que o mundo que experimentamos ele se esboroe? Outro ponto imediatamente advindo desta opção liberal é a peremptória recusa de que se possa imprimir uma crítica geral, totalizante, e uma ação que possa tocar a estes pontos nodais (a este cancro) sem combatê-lo de forma radical. Leitura liberal do pensamento de Foucault! E isto até mesmo porque pouco se falará que Foucault buscou ao percurso de sua obra os modos outros do pensar, do existir, a experiência-limite tantas vezes em sua obra indicada pela forma e pelos giros com que ele imprimia a si os seus deslocamentos analíticos. Pensar  que o que Foucault queria ao indicar a micropolítica como modus operandi a um certo instante das lutas fosse o se situar em definitivo ao ‘micropolítico’ é enfraquecer a força de seu pensamento. É perder, ou deixar perder, o grau de sua recusa, a urgência de ação face ao intolerável. E isto, claro está, os liberais jamais serão capazes de admitir, jamais serão capazes de promover. Está-se geralmente a separar o joio do trigo como quem garante a si a boa colheita, o ensacamento do cereal como acumulação primitiva de capital. Noutros termos: a salvaguarda das batatas for o caso o butim de uma guerra que se cisma desautorizar o seu feito - todavia, foucaulteanos que são (ou que se dizem ser, estes liberais) há de se ter em boa conta que nunca é que a guerra está suspensa. Ela se sustenta sob a condição de Exceção contínua (e regular) na que prima o perfeito funcionamento do Estado de Direito com seu vigor administrativo, judiciário e penal (e fiscal). Sem esquecer, ou deixar que se esqueça, os moldes/modos do patrimonialismo como traço constitutivo (e permanente) do Estado Nacional no Brasil. Noutros termos: os contornos da 'coisa pública' clivada desde os arranjos dos quintais privados, e então tudo como que enredado no plano do Mesmo, qual seja isto senão: público/privado; Estado/privilégios de classe; código regulamentar de leis/conluio de partes; defesa da ordem e do progresso - os interesses nacionais/manutenção do assalto e dos vilipêndios que é desde a camarilha e seu pelotão de choque. Este um ponto.


Êxito na Educação - E então aí a sua crítica mordaz à condição de ‘inserção sem o se deixar enredar’?

André Queiroz - Como não?! Isto posto, insiste a questão, ela se nos volta: “inserir-se sem se deixar enredar”? Importante então que tomemos um outro plano, o da análise das forças. Pelo que será se se toma quando se pensa que operando de dentro se pode desmantelar certas engrenagens, se pode destravar certos trincos, desobnubilar certas visadas? Pelo que será se se toma quando se está a operar aos centros da maquinaria como se o que se estivesse a fazer era o impor tamancos entre as peças de rodagem, uma greve insidiosa que paralisaria o fluxo do estado de coisas? Noutros termos, e de forma mais direta: Como garantir o potencial crítico do pensamento filosófico, do pensar filosófico, a máquina crítica da filosofia (e ela entregue ao alunado) quando se está às “múltiplas formas de pasteurização” de que geralmente se promove ao sistema de ensino formal tradicional? Dois ou três tempos de aula semanais numa grade de disciplinas que sequer elas se atravessam de forma transdisciplinar, seria suficiente? Dois ou três tempos (quando isto!) se pouco ou nada sequer se misturam (ou se confundem na boa confusão das fusões) o que se irá trabalhar ao estudo das línguas, das literaturas, das geografias, das histórias, das ciências, das biologias, das matemáticas? Cada qual a operar como se fossem mônadas autoreguladas­/autoreferidas e cada qual disposta a atender a um conteúdo programático que se pretende universalizante e desterritorializado, e ainda assim a incidência da força que promove o pensar crítico? Será resiste esta potência crítica, a função da filosofia sob uma tal condição, sob um tal contexto? Pelo que será se toma um aquele que, a despeito de todo este cenário muito pouco ou nada dado às alternâncias e aos trânsitos, ainda assim afirma que se está a fazer o jogo de formiguinha, levando o grão de um ponto a outro, levando o trabalho, necessário e possível, de uma estação a outra? Será não se percebe que há de se operar ao descarrilamento do comboio?! Mas tal descarrilamento parece pressu­por ações que são coletivas, e ações que teçam a crítica radical ao estado de coisas da educação formal e que busquem promover formas outras ao trabalho do ensino, à compreensão do que é o ensinar e ao quê ele se presta. Fazer balançar os lugares comuns da educação, da escola que se faz no Brasil (não estou fazendo a crítica com relação às ações positivas e afirmadoras de uma nova escola!). Fazer mexer com vigor e urgência na relação profes­sor/alu­­no, disciplina/con­teúdo, escola/comunida­de/espaço social - coisas que já Paulo Freire evocava há quantos anos, quarenta, cinquenta anos? Necessário que não se abdique da gravidade e amplitude de tais problemas (e dos campos à intervenção). Creio ser mais inconveniente a ação de esgar­çar, a de explodir - ações de resistência e recusa. Inconveni­en­te sobretudo porque se põe em suspenso a divisão de qual­quer butim. São os necessários sacrifícios para o quando das bata­lhas, o calor e estridência delas. Todavia, não creio na potência do criar que não seja suficientemente suja dos embates radicais face ao intolerável.

Site de André Queiroz:
http://andrequeiroz.com

Obras do Autor:

  • (1998) A Morte falada (com prefacio de Benedito Nunes). Rio de Janeiro: 7letras.
  • (1999) Foucault, o paradoxo das passagens. Rio de Janeiro: Pazulin editora.
  • (2001) Tela atravessada – ensaios sobre cinema e filosofia. Belém: Cejup editora.
  • (2004) O Sonho de nunca. Rio de Janeiro: 7letras.
  • (2004) Outros nomes, sopro. Rio de Janeiro: 7letras.
  • (2004;2011) O Presente, o intolerável – Foucault e a história do presente.Rio de Janeiro: 7letras/Faperj.
  • (2007) Em Direção a Ingmar Bergman. (com ilustrações de Luizan Pinheiro). Rio de Janeiro: 7letras.
  • (2007) Antonin Artaud, meu próximo. Rio de Janeiro: Pazulin editora.
  • (2011) Palavra imagem - cinema filosofia literatura. Rio de Janeiro: Editora Multifoco.
  • (2011) Patchwork - livro para teatro. Rio de Janeiro: Editora Multifoco.
  • (2011) Imagens da biopolítica I - cartografias do horror. Rio de Janeiro: Editora Multifoco.
  • (2013) A Coragem da verdade. Conversas com Ney Ferraz Paiva. Rio de Janeiro: Pazulin editora.
  • (a sair): Carta à infância de Pedro.

Concepção, co-organização, apresentação, e texto de orelha:

  • (2007) Foucault hoje? (com Nina Velasco e Cruz). Rio de Janeiro: 7letras/UFF.
  • (2007) Barthes & Blanchot: um encontro possível? (com Nina Velasco e Cruz e Fabiana de Moraes). Rio de Janeiro: 7letras/UFF.
  • (2008) Apenas Blanchot! (com Nilson Oliveira e Luiza Alvim). Rio de Janeiro: Pazulin/Faperj.

Concepção, organização, apresentação:

  • (2010;2012) Arte & pensamento: a reinvenção do nordeste - Volumes 1, 2 e 3. Fortaleza: Expressão Editora/ Sesc-CE.
  • (a sair) Foucault e a loucura. Rio de Janeiro: SESC DN.
  • (a sair) Diálogos com Foucault. Rio de Janeiro: SESC DN.

Co-organização:

  • (2007) Pensar de outra maneira – a partir de Cláudio Ulpiano. (com Mário Bruno e Isabelle Christ). Rio de Janeiro: Pazulin/UFF.
  • (2009) Aspectos do cinema português. (com Jorge Cruz, Leandro Mendonça e Paulo Filipe Monteiro).

Comments   

 
0 #2 luigi4235 2015-03-02 19:20
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0 #1 luigi4235 2015-02-14 11:47
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