Revista Êxito na Educação

As mulheres existem

Meninas brincando na praia - foto de Cynthia DornelesPara uma jovem que hoje usa minissaia com a mesma liberdade que pode usar um jeans; dá beijo na boca de quem quiser ou não beija ninguém; que concorre no mercado de trabalho; que vota contrariada em partidos que parecem todos iguais - talvez para ela não faça o menor sentido a palavra "feminista".

Talvez a moça tenha ouvido falar ou visto fotografias de umas mulheres queimando sutiãs e já tenha visto um livro grosso chamado O Segundo Sexo de uma tal de Simone de Beauvoir que sua avó lhe contou ser uma feminista que dizia que a mulher não é, a mulher torna-se mulher.

 

No dia 8 de março o Google aparece com alguma figu­rinha que indica que este é o dia internacional da mulher e conta que foi neste dia, em 1917, que as mulheres russas lutaram por melhores condições de trabalho. A Wikipédia não torna o assunto lá muito interessante, mas a jovem pode pelo menos vislum­brar que algo aconteceu neste dia com este grupo de mulheres.

Seja lá como for, o sentido da palavra "feminista" torna-se cada vez mais distante do que foi a realidade destas primeiras mulheres a rom­per a barreira do silêncio e invisibi­li­dade que carac­te­rizavam uma típica existência feminina.

Sim, a mulher, em geral, era invisí­vel. Elas eram pouco vistas em espaços públicos, viviam confinadas às suas casas. Não eram incentiva­das a aprender a ler, nem escrever, nem aprender outro ofício que não o de ser mãe e cuidar de uma casa. Muitas vezes eram ajudantes não remuneradas de seus maridos, no artesanato, na feira, nas lojas. Cos­tumavam saber contar. A maioria era constituída de camponesas - por sinal, ainda há uma grande quanti­dade de camponesas em muitos pontos do globo. As camponesas são as mais silenciosas das mulhe­res. Completamente mergulhadas na hierarquia das sociedades patri­arcais, elas estão fundidas com suas famílias, em trabalhos que se repe­tem e fogem dos livros de História, fortemente marcados pelos ritmos das estações.
Foi a partir da Revolução Industrial, do êxodo rural e do regime de salários que se modifica a condição feminina e as mulheres começam a entrar no cenário urbano: exata­mente por serem uma mão de obra mais barata, junto das crianças, que também são empregadas nas fábricas. E foi a partir daí que surgiram os primeiros escritos feitos por mulhe­res, visando os direitos e as reinvindicações femininas.

Roda das moças - foto de Cynthia DornelesNão é difícil de entender como o fato das mulheres estarem confinadas ao lar as tornava invisíveis. Cuidar da alimentação, higiene e organização doméstica continua a ser um dos trabalhos mais importantes, pesados e sem reconhecimento de que já se ouviu falar. Há quem até hoje creia que são fadas que cozinham, lavam louças, varrem o chão, lavam rou­pas, passam e as organizam nas gavetas, que jogam fora o lixo e limpam as coisas.

As fadas só existem nos contos infantis.

O que existe de fato são as mães, as tias, as empregadas domésticas e as máquinas de lavar roupa ou louça. São as mulheres e mais modernamente estas máquinas maravilhosas que fazem este trabalho diário e infinito, sem o qual adoeceríamos ou regredi­ríamos a um estado pré-cultura, pré-civilização do ser. Trabalho doméstico: silencioso, invisível, como o reconhecimento das mulheres que os realizam. Mas não deveria ser assim, já que este trabalho é um dos pilares da civilização e da cultura humanas.

Sem preparar o alimento e levá-lo ao fogo, comeríamos carnes cruas - poderíamos sobreviver a alguns tipos de carnes cruas, mas o mais provável é que isto não desse certo porque não é toda carne que pode ser consumida crua. Além disto, de qualquer maneira, sem depois lavar os recipientes que utilizamos, toda sorte de micro-organismos apareceriam e nós adoecería­mos como con­sequência da interação com estes poderosos e microscópicos bichinhos.

Quanto tempo o ser humano levou para des­co­brir estas coisas? Com certeza muitos séculos até percebermos que em ambientes limpos vivemos melhor. É uma conquista da huma­nidade esta percepção de que a higiene é fundamental para nossa existência. Preparar alimentos, conservá-los, limpá-los: tudo isto é muito trabalhoso e na verdade, com­plexo. Demanda tempo e aten­ção. As primei­ras a prestarem atenção nisto foram as pró­prias mulheres, as primeiras encarregadas do trabalho de nu­trição da prole.
Nas mais diver­sas culturas, sempre foram as mulheres que se encarregaram da nutrição dos bebês. Os demais hábitos dos grupos variam em função deste trabalho básico.

Há diferentes enfoques sobre a feminilidade. A sexualidade femini­na é um dos pontos que considero mais instigantes, até porque há sobre este assunto ora um oculta­mento ora uma imensa exposição que me parecem sempre dignos de nota, afinal este olhar e estes dis­cursos sobre o feminino e o mascu­lino traduzem interesses e poderes que geralmente se ocultam por trás de certas práticas e ditos. Vejamos então o padrão do modelo sexual único, que foi o primeiro modelo usado na ciência para se pensar a sexualidade.

"Até o século XVIII, a concepção científica da sexualidade era a do one-sex model, ou seja, a mulher era entendida como sendo um homem invertido. O útero era o escroto feminino, os ovários os testículos e a vagina um pênis. O modelo metafísico ideal do corpo humano era o homem. Ele era a encarnação da perfeição. A mulher era um homem invertido e inferior." (Costa, Jurandir Freire da, A Face e o Verso, p.100) A mulher não existia como mulher no campo da ciência e tudo o que se produziu academi­ca­mente partia deste pres­su­posto do modelo sexual único onde o ho­mem é quem contava.

Foi só a par­tir do século XVIII - ou se­ja, relativa­mente muito recente­mente - que surgiu o two sex model, o modelo sexual duplo. A partir de então, considerou-se cientificamente que existiria um dimorfismo radical e original da sexualidade. Mas é preciso dizer mais sobre isto.

Moça correndo - foto de Cynthia DornelesToda a sexualidade feminina sempre foi regida pelo fato da mulher poder ser mãe. A fecundidade era vista como uma benção e a esterilidade como o maior dos infortúnios. Por um tempo acreditou-se que a mu­lher deveria gozar - para que hou­ves­se repro­dução. Muitos tratados, escritos por homens, foram feitos tendo por máxima que o gozo da mulher era o fundamental para que uma gravidez acontecesse. Mais tarde, a teoria muda - exatamente porque mudam os interesses em jogo, que por sua vez, influenciam nas práticas de vida dos indivíduos e das famílias. Já no século XIX, Baker Brown, um cirurgião inglês, afirma­va que a excitação do nervo pubiano (masturbação) estaria na origem da histeria e de outras perturbações do espírito como os ataques epilépticos e que poderia causar a morte.

Segundo este cidadão, a cura disto era a ablação do clítoris. Somente o orgasmo vaginal era o verdadeiro representante da maturidade sexual da mulher e Marie Bonaparte, psicanalista, discípula e tradutora de Freud na França, tentou aproximar, por meio de três (!) cirurgias fracassadas, o clítoris da vagina, a fim de curar-se de sua "frigidez vaginal" e ser "normalmente orgásmica". Até hoje os ecos fantasmagóricos desta crença de que só o orgasmo vaginal é bom fazem muitas mulheres e homens avançarem numa cruzada anti-clítoris infernal.

Nossa cultura cristã-ocidental não estava tão distante das práticas muçulmanas de extirpação do clítoris que até hoje acontecem em certas regiões e que deixam chocados aos ocidentais. Toda a violência implícita neste ato misógino e universal - já que foi praticado por orientais e ocidentais até relativamente pouco tempo atrás - até hoje tem suas reverbera­ções por exemplo nas imagens cinematográficas, onde as mulheres sempre são mostradas tendo prazer pela penetração vaginal e não por outras vias.

A Medicina da Mulher e da reprodução começa exatamente a partir de interesses de Estado. Quando as autoridades públicas percebem a importância do número de indivíduos para se ganhar uma guerra, é quando surgem as leis de proteção à maternidade e à infância com todo o seu aparato jurídico-policial. A própria criação da Ginecologia vem em ajuda na manutenção deste aparato de vigilância sobre a mulher, tornando-se um dos braços destes aparatos jurídicos-policiais. "Os médicos se apresentam como legisladores sociais, bem preparados pelo conhecimento científico, e capazes de prescrever as normas mais adequadas no que se refere ao comportamento sexual e reprodutivo dos indivíduos. Com a medicina legal vão propor não somente princípios gerais, mas também métodos e regras a serem cumpridas no andamento das investigações e no decorrer dos processos. Como indicarei para o caso do infanticídio, a doutrina jurídica também em muito vai se inspirar nos avanços da medicina para guiar suas definições" (Rohden, Fabíola, p. 19).

Outra sereia - foto de Cynthia DornelesA ginecologia surge entre o século XIX e XX que, não por coincidência, no advento da Revolução Industrial, do afluxo massivo dos camponeses para as cidades, o que, por sua vez, representa o princípio da sociedade das massas - que deverão ser severamente vigiadas, contidas e disciplinadas. Fatos interligados, época da eclosão da primeira e da segunda guerras mundiais. Toda guerra demonstra que o número de indivíduos pode fazer diferença quando os resultados pendem para um ou outro lado. Igualmente, não é por coincidência que o infanticídio só passa a ser considerado crime a partir do século XIX. “Constata-se, assim, que a sociedade não está interessada a princípio na mulher, mas naquilo em que ela pode ser produtiva ou prejudicial. O que está em jogo é a produção de novos indivíduos para a coletividade. E a mulher que chegou ao estado de gravidez tem de necessariamente apresentar algum resultado, ou seja, o filho, mesmo que seja morto. A gravidez está longe de ser vista como um evento do plano pessoal ou privado. Ela é um acontecimento social, na medida em que deve ser de domínio público, mas também no sentido que produz bens para a sociedade.” (Rohden, Fabíola, p. 50, A Arte de Enganar a Natureza)

É a partir de 1852 que começam a surgir leis e discursos médicos e forenses sobre a mulher e o parto. A principal função da mulher é reproduzir, dar filhos à sociedade e a maternidade é tida como algo natural, indiscutível.

Por outro lado, vale lembrar que os processos e inquéritos referentes a aborto e infanticídio só têm mulheres das camadas populares envolvidas. Essas práticas, a partir do que dizem os textos médicos sobre o assunto e os depoimentos coletados nos processos, surgem como únicas possibilidades para se tentar restringir o número de filhos. As mulheres de camadas sociais mais altas provavelmente também estavam envolvidas com práticas semelhantes, mas os métodos utilizados e o acesso a profissionais mais gabaritados ajudavam a manter estas práticas em segredo. As perseguições às mulheres e aos envolvidos em práticas desta natureza só começavam no momento em que um indício, um feto morto ou a morte de uma mulher ou uma denúncia vinham à tona.

O feminismo não foi um fato simples para as mulheres porque agir em espaços públicos não era característica das mulheres, dedicadas ao domínio privado, educadas para serem belas, discretas e silenciosas. A política por muito tempo foi uma fortaleza só de homens onde as mulheres nem cogitavam entrar. Por sinal, a polis grega exclui as mulheres, tal como os escravos. As mulheres só podiam intervir em crises agudas onde a própria existência da polis fosse posta em risco.

Se a polis grega era masculina, não menos masculina foi a Idade Média, onde a aristrocracia efetuava a troca de bens e das mulheres segundo o interesse das linhagens e pelo viés dos casamentos abençoados pela Igreja. Mais uma vez, as mulheres só adquirem poder quando acontecem guerras e situações de calamidade.

Voltando ao feminismo, atribui-se a criação da palavra a Pierre Leroux, inventor da palavra "socialismo". Mas foi Alexandre Dumas Filho que em 1872 celebrizou-se com a frase "o feminismo é a doença dos homens suficientemente efeminados para tomar o partido das mulheres adúlteras, em vez de vingar a própria honra". Em 1880, Hubertine Auclert, sufra­gista francesa, declara-se orgulhosamente "feminis­ta". Ao final do século, todos estes adjetivos e substantivos entram na moda.

Feministas eram todos aqueles que luta­vam pela igualdade de direitos entre os sexos. O feminismo foi um movimento, por sinal, com traços bastante semelhantes aos contemporâneos "Sem Partido". Não tinha organizações estáveis, nem lugares de reunião próprios. Movimentos súbitos eram sua característica.

A reinvidicação e conquista dos direitos do corpo caracterizam o feminismo contem­porâneo. Our bodies, ourselves, título do livro de feministas de Boston, com centenas de exemplares vendidos é emblemático deste momento. Questões de identidade, diferenças e hierarquias entre os sexos; homossexualidade, lesbianismo como maneira de estar no mundo, muito além do direito pessoal. Isto é feminismo.


Referências

  • Costa, Jurandir Freire. A Face e o Verso. Editora Escuta, 1995.
  • Mead, Margareth. Macho e Fêmea. Editora Vozes, 1971.
  • Rohden, Fabíola. A Arte de Enganar a Natureza, Coleção História e Saúde, Fundação Osvaldo Cruz, 2003.
  • Perrot, Michelle. Minha História das Mulheres. Editora Contexto, 2012.

 
Retrato de Cynthia Dorneles por Roque LabancaCynthia Dornelles é graduada em Ciências Sociais (UFRJ) e Psicologia (USU), pós-graduada em psicanálise pelo CEPCOP/USU, shiatsuterapeuta e autora de Amante Ideal (2000), Os 1001 E-mails - Sherazade Conta Histórias Eróticas a um Marujo Solitário (2003) e da antologia +30 Mulheres que Estão Fazendo a Nova Literatura Brasileira. Gravou 3 CDs independentes como cantora e compositora: Minha Aldeia (1995), Cynthia Movimentos (2000) e Onde a Música Não Pára (2002). Blog: lucidolimpidoproparoxitono.blogspot.com/
Site: http://www.cynthiadorneles.com.br