Revista Êxito na Educação

Cinema e Educação (1)

Capa do DVD "Sociedade dos Poetas Mortos"Sociedade dos Poetas Mortos

Dirigido por Peter Weir, Sociedade dos Poetas Mortos tornou-se um clássico do gênero, provavelmente pela impecável descrição de um sistema retrógrado e falido de ensino na Inglaterra e ambientado num colégio interno.

O sucesso atribuído ao filme decorreu também do pensamento visionário de seu criador e não à toa seu lançamento aconteceu no início de 1990, embora o filme se passe em 1959. Coincidência ou não, o fim da Guerra Fria e uma consolidação da Democracia e Globalização também aconteciam. Sociedade dos Poetas Mortos traz consigo uma valorização da liberdade de expressão de uma subjetividade propositalmente escamoteada. E também um enorme convite e incentivo à poesia e toda sua importância.


O brilhantismo de Sociedade dos Poetas Mortos ultrapassa questões técnicas ou críticas, principalmente pela forma como professores e alunos ficaram e ainda ficam tocados ao assisti-lo.

Em tempos de discursos repetitivos, onde o pedagógico funciona como automação de fórmulas prontas,  inibindo a expressão em nome de uma moral disfarçada de ética, o trabalho de Peter Weir continua a nos falar muito de perto. Ainda que hoje os discursos apresentem como meta, nas escolas e fora dela, a ampliação da didática como incentivo à criação e o pensamento crítico, o que vemos em toda parte permanece sendo uma hierarquia cega, que dita procedimentos e modus operandi totalmente incompatíveis com essa prática.

Capa do DVD "Entre os Muros da Escola"Entre os Muros da Escola

Neste longa de Lauren Cantet, diferente do filme citado anteriormente, apresenta uma França da atualidade e enfoca questões que vão desde a colonização até as divergências culturais e idiomáticas. A lente de aumento que Cantet aplica ao filme expõe com bastante eficácia pontos pertinentes e abrangentes relativos a problemas que outros países atravessam, com sistemas educacionais distintos ou até similares, como o Brasil por exemplo.

A rebeldia dos personagens, a extrema insolência de uma aluna, o enorme esforço do aluno de outra etnia para aprender a cultura dominante, mas também o empenho do professor-colonizador para que seus alunos absorvam o idioma, trazem uma sensação avassaladora de realidade. E esse é um dos diferenciais desse filme, que transpira vida real em situações absolutamente críveis e que nos fazem refletir a cada diálogo, a cada conflito, mas também a cada solução possível e a cada improviso dos personagens e do diretor. É um filme que não distorce a realidade, pelo contrário, ele se mantém verossímil do início ao fim. Pode-se dizer que em alguns momentos Entre os Muros da Escola lembra um documentário elaborado, com suas cenas em sala de aula com a “câmera na mão”.

Desprovido de qualquer senso maniqueísta o filme retrata os papéis de professor e alunos em meio às hierarquias responsáveis pelo sistema educacional na França. Os atravessamentos externos, as contingências político-sociais são imprescindíveis para que o filme mantenha seu ritmo baseado em diálogos e reflexões instigantes. Estas só não são cansativas na medida do quão atraentes se tornam por seu conteúdo rico, tão bem adequado às situações expostas.

É dado grande destaque à figura do professor, embora sistematicamente desrespeitada, enfrentada e questionada. Mas o cerne da questão não parece ser esse e sim a inclusão desses alunos tão diversos e sobreviventes de um sistema obsoleto, frágil e com dificuldades de acolher às diferenças. Entre os Muros da Escola aposta na absorção dessas diferenças de classe, culturas e etnias, levando em consideração todas as pedras no caminho. Além do mais, faz jus a um corpo discente que vai de 13 a 15 anos, em plena adolescência.

Capa do DVD "Paulo Freire Contemporâneo"Paulo Freire Contemporâneo – Documentário

Documentário bastante interessante de 2007 sobre a vida e obra de Paulo Freire, abordando a prática da alfabetização freireana na década de 60 e relatos de suas filhas também educadoras e de sua segunda mulher. Dono de uma prática necessária, atualíssima e ainda hoje avançada, Paulo Freire nos atualiza com seus pensamentos contemporâneos, generosos, sábios e eficientes.

Talvez um de seus maiores legados tenha sido a implementação do diálogo em sala de aula. Onde o aluno passa a não ser mais passivo para também fazer parte de seu aprendizado, trocando e acrescentando à didática de sala de aula. Neste documentário vemos um Paulo Freire vivo, presente nas discussões acerca da educação, em sala de aula, nos conflitos entre professor-aluno.
Sua máxima “todos ensinam a aprender e aprendem a ensinar” é bastante difundida mas pouco praticada. Vemos o quão difícil é para quem de direito pode fazer valer esse pensamento. Sabemos também que o preço de qualificar uma ideia como essa pode ser alto para àqueles que se opõem a uma educação democrática, livre, transdisciplinar.  

Paulo Freire foi convidado por João Goulart para coordenar o Programa Nacional  de Alfabetização. No entanto sua iniciativa de alfabetizar foi considerada uma ameaça aos militares e o educador foi exilado após o Golpe Militar de 1964, mas continuou produzindo em sua área.  Sua Pedagogia do Oprimido, lançada em 1969, detalha e esmiuça seu método de alfabetização de adultos e de forma tão cuidadosa e inovadora que tornou-se sua principal obra.

Somos privilegiados por ter acesso a esse lindo e  instrutivo documentário, produzido pela TV Escola e dirigido por Toni Ventura, que homenageia o educador com este o vídeo lançado dez anos após sua morte.

 A marca indelével de Paulo Freire nos discursos de educação está por aí, está entre nós. Em pequena escala, nas sutilezas de Entre os Muros da Escola, nas entrelinhas do discurso do novo educador na Academia Welton de Sociedade dos Poetas Mortos.  O certo é que ela desponta, quando convocada.

“Educar é ter a certeza do inacabado..” (Paulo Freire)

Do conservadorismo presente em A Sociedade dos Poetas Mortos à barbárie real de Entre os Muros da Escola, passando pela sensatez equilibrada do documentário sobre o educador mais atual que o Brasil já teve: Paulo Freire - ouso comentar os três títulos na tentativa de traçar paralelos e contrapontos.

“O cinema nos coloca cara a cara com o comportamento da infância, com seu movimento, com sua corporeidade, com sua gestualidade própria, que só pode ser conhecida a partir do exterior, que só pode ser vista, mas não compreendida“. (A Infância vai ao cinema)

As três obras citadas acima falam de algo que não pode ser compreendido, mas só visto. De alguma forma, uma vez inseridos na cultura somos capazes de notar e perceber sua grandiosidade, suas idiossincrasias, mas não de compreendê-las inteiramente.
Paulo Freire talvez seja o que mais nos alcança, nessa árdua tarefa que é lutar pela qualidade do Ensino no Brasil. Onde aproxima o aprendizado do ensinamento, tenta viabilizar algum tipo de compreensão a partir do exterior, para só então propor sua internalização.

Há quem diga que Sociedade dos Poetas Mortos oferece apenas uma visão “passiva” do papel do professor (e do nosso, como espectadores), desse homem bonzinho que quer resgatar o desejo de criar, que faz de tudo para manter a chama da paixão pela poesia, pela leitura e pela escrita em meio a um ambiente hostil, duro e ultrapassado. Pode ser. É provável que o filme seja tendencioso quanto ao formato que apresenta, contudo o que me salta aos olhos (sobretudo em seu próprio contexto) é a denúncia cordial, bem intencionada, do quão nocivo pode ser para um indivíduo ser sufocado em seu próprio desejo e liberdade de expressão.

Não muito distante do que vivemos e disfarçado de “modernidade”,  as escolas vivem um impasse modulado pelo governo. Entre os Muros da Escola alcança com maestria seu objetivo que é o de nos instigar à reflexão sobre a questão da inclusão - que ainda hoje permanece como uma das mais desafiadoras empreitadas a ser enfrentada. A Inclusão pode ser vista como Inovação, com a meta da tão falada Educação para Todos, mas na prática não é assim que ocorre.  Entre os Muros da Escola toca direto nesse ponto e na enorme falha do Ensino, não só na França mas também entre nós, ao lidar de uma forma estereotipada com alunos de diferentes etnias, culturas. E não apenas o que imaginamos aqui, no Brasil. Como alunos que demandam inclusão sendo especiais. A Inclusão simplesmente não acontece em classe alguma, em segmento algum.

No documentário de Paulo Freire, já temos o panorama da obstinação do educador quanto a implementação de sua metodologia e, justamente, sua proposta de inclusão. A recusa era extensa, era maçante, era feita para que desistissem, assim como hoje nas escolas.

Tanto os personagens das ficções Sociedade dos Poetas Mortos e Entre os Muros da Escola quanto os colaboradores do documentário de Freire iluminam nossas perspectivas de ensino-aprendizagem, esclarecem os diferentes aspectos de uma rotina difícil, trabalhosa, que envolve muito mais talento, interesse e didatismo do que propriamente conhecimento especializado, qualificado. Não que esses atributos não contem, muito pelo contrário. No entanto não basta tê-los se não há dedicação e interesse.

François, professor de Entre os Muros da Escola, nada seria se atuasse em sala de aula somente como um simples professor burocrata. Mas na medida em que ele age como colonizador, promovendo interação e incorporando os alunos à cultura vigente, ele passa a ser um facilitador do processo do ensino-aprendizagem.  O mesmo ocorre com Keating, novo professor de literatura que rompe com os moldes conservadores da escola propondo um novo olhar para suas vidas, propiciando a liberdade de viverem uma vida que não só a acadêmica. Mais uma vez o personagem de Sociedade dos Poetas Mortos media o aprendizado tradicional fazendo uma ponte com as experiências dos alunos, que passam a rever seus desejos e metas.

François e Keating incorporam Paulo Freire em seus papéis inesquecíveis. Ambos se apropriam de uma pedagogia do oprimido, trazendo à tona na tela uma Pedagogia da Libertação. A Sétima Arte não foi revolucionária o suficiente e tampouco alcançou a obra de Paulo Freire, mas parece que não foram poucas as tentativas de tocar nestes pontos nevrálgicos e bastante complexos relativos à Educação.
Foto de Carol GretherAna Carolina Grether é psicopedagoga (UES), psicóloga clínica (USU) com formação em psicanálise pela SPAG-RJ Sociedade Psicanalítica Gradiva. E-mail: O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.
blog: http://bluevelvetblog.wordpress.com/

A partir desta edição, a autora passa a assinar uma seção sobre Cinema e Educação.