Revista Êxito na Educação

Drogas: um breve panorama

por Cynthia Dorneles


Algum dia, quando a descriminalização
das drogas for uma realidade,
os historiadores olharão para trás
e sentirão o mesmo arrepio
que hoje nos produz a Inquisição
(Javier Martinez Lazaro, juiz penalista, Madri Espanha)

Não falar sobre as drogas não modifica a realidade de que hoje a maioria dos seres humanos as consomem, sejam elas lícitas ou não. Além disto recentemente, aqui nas Américas, o Uruguai e dois Estados norte-americanos (Washington e Colorado) regulamentaram o comércio da droga para uso recreativo, o que por um lado representa um grande avanço social mas igualmente uma grande responsabilidade para todos nós.

É preciso falar de drogas sim. E falar de uma forma mais franca do que o que se tem falado até agora em geral. Colocando todos os pontos nos i a que se tem direito, educar para conscientizar, sem alarmismos. Nem elogiando nem demonizando. Ser imparcial como poucos conseguiram até o momento, em que até clínicos compram um discurso mais esburacado que queijo suíço, que revela mais preconceitos do que qualquer informação objetiva.


Cynthia Dorneles (foto: Acervo Pessoal)


Afinal, há comprovações de que o ser humano usa drogas desde as cavernas e a tendência é que surjam mais e mais drogas no futuro. Temos de aprender a conviver com elas, para que nos causem o menor dano possível e o máximo de benefícios, naquilo que delas pudermos extrair de bom. Temos de estudar e perceber como expandirmos nossa consciência de forma a nos ajudar e estudar políticas mais eficientes para controlar o uso inevitável de substâncias psicoativas.

 

As atuais políticas públicas para lidar com o problema são desastrosas. Os perigos relacionados ao seu uso - para o indivíduo, sua família ou grupo social - têm de ser devidamente abordados e mensurados.

Na pré-história, quando o ser humano procurava plantas para alimentar-se, também descobria algumas que com princípios psicoativos. Em todas as culturas o ser humano teve contato com uma ou várias drogas, normalmente várias, em combinação. Estas substâncias eram consideradas mais valiosas que o próprio alimento.

foto: Cynthia Dorneles


As três principais modalidades de uso eram recreativas, médicas ou sagradas, em ritos de iniciação ou de passagem, onde está inclusive a origem da religião cristã. As drogas eram o alimento do espírito. E, a partir do século XIX, com o isolamento dos princípios ativos das drogas e a possibilidade de dosar estes princípios, as drogas tornam-se fundamentais para a Medicina e Farmácia e principalmente para a Psicologia. E vai muito além.

Em encontros internacionais de produtores de maconha especificamente, realizados na Suíça, observa-se que há diversos outros usos possíveis. Desde o uso doméstico passando por cremes cosméticos, produção de papel, até em automóveis e aviões, as possibilidades da Cannabis sativa são riquíssimas e abrem um novo mercado, com possibilidades praticamente infinitas. Um exemplo é o de um óleo derivado da planta, que quando utilizado em carros, faz com que estes consumam menos gasolina e poluam menos.  O curioso é que sempre se soube das múltiplas utilidades da Cannabis. O cânhamo usado nos velames dos navios foi um elemento sempre presente nas navegações porque suas fibras são longas e muito mais resistentes à deterioração na água.  A revolução feita por Gutemberb não teria sido possível sem a existência da Cannabis sativa e seus derivados, dentre eles um tipo de papel. As telas de pintura vinham do cânhamo, tanto é que o termo em Inglês “Canvas” (tela para pintura) vem de cânhamo e as próprias tintas provinham de seu óleo. Este também era utilizado na iluminação pública, como segunda fonte de iluminação, junto com o óleo de baleia.

O uso de drogas só se tornou um sério problema a partir do século XX em diante. Foi em 1971, com Nixon no governo dos EUA, que começaram as grandes ofensivas globais contra as drogas. É preciso entender como é que seu discurso - “O problema número um dos Estados Unidos é o abuso de drogas” - ganhou tanta repercussão e todos os resultados que conhecemos desta guerra às drogas promovida pelos estadunidenses. Para entender isto é fundamental mergulhar na História, na Economia e na Política, nos verdadeiros fatores que tornaram algumas drogas (como a maconha, a cocaína e a heroína) proibidas e outras (como o álcool e o tabaco) não.

foto: Cynthia Dorneles



Para começar temos que definir o que é droga. Usarei como referência ao longo deste artigo o Almanaque das Drogas: Um Guia Informal para o Debate Racional, livro de Tarso Araújo (o mais completo e menos preconceituoso existente hoje no Brasil e com que já tive contato) e que inspirou o documentário Cortina de Fumaça de Rodrigo Mac Niven, fruto de uma cuidadosa e extensa pesquisa por parte de seus produtores. Minhas únicas reservas ao livro seriam pelo fato de que algumas pesquisas relatadas datam de 4 anos. Contudo sua exposição não perdeu a riqueza, quando muito mudaram os números porque, com certeza, mais e mais indivíduos recorrem às drogas, seja numa tentativa de automedicação, seja para celebrar ou ainda para alienar a si mesmos de contextos pessoais deprimentes e sem perspectivas.

A maioria ao falar de drogas logo pensa no crack, na maconha ou na cocaína. Uma parcela menor, também emprega o termo para referir-se ao álcool e ao tabaco. Para a grande maioria da população, droga é o que “faz mal”. Apenas médicos e farmacêuticos irão chamar a Aspirina de droga. Há também aqueles que consideram o café e o açúcar branco como drogas pois entendem como tal qualquer substância que dê barato ou seja, altere de algum modo a consciência. O conceito é vago e admite muitas interpretações.
Segundo Tarso Araújo, a definição dos farmacologistas define droga como “qualquer substância capaz de alterar o funcionamento normal de um organismo". É a interpretação mais próxima àquela dos gregos antigos, que chamavam phármakon tanto o remédio quanto o veneno. Eles entendiam que nenhuma substância é boa ou má em si mesma. O uso que se faz dela, sua dosagem, é que definirá suas consequências. Segundo esta abordagem, maconha e cocaína são drogas, tanto quanto a Aspirina e até aquele chá de camomila que você bebe para dormir melhor".

Na linha de pensamento de droga é qualquer substância que “dê barato”, encontra-se um grupo específico de drogas chamado psicotrópicas ou psicoativas. A Organização Mundial da Saúde, em seu Glossário de Álcool e Drogas, define este grupo como substâncias que afetam os processos mentais. Porque o álcool é, sem dúvida, uma droga. E uma droga pesada.
Também faremos uma distinção entre usuário, dependente e viciado. Usuários são pessoas que consomem drogas em frequências variadas. Uma pessoa que bebe uma cervejinha aos sábados e outra que fume um baseado nos fins de semana seriam usuários. A dependência química é uma doença crônica que acomete uma pequena fração dos usuários de drogas. Uma pessoa que fume crack várias vezes ao dia, arriscando sua vida, praticando crimes para poder obter sua droga é, provavelmente, um dependente químico e não apenas usuário. O termo viciado é usado coloquialmente para definir o dependente químico.

foto: Cynthia Dorneles


No ranking do vício, num estudo feito em 2009 no Reino Unido por especialistas de diversas áreas, o tabaco encabeçava a lista, em segundo a heroína, em terceiro a cocaína e em quarto era o álcool. Em quinto estavam os estimulantes, em sexto os ansiolíticos e em sétimo lugar estava a maconha. Mesmo que tenham se passado cinco anos e a pesquisa tenha sido feita no Reino Unido, tem-se uma clara ideia dos níveis de adicção (dependência química e comportamental) provocada por estas drogas.

Não há casos relatados de overdose por maconha. Estima-se que seria necessário fumar 680 quilos de maconha em 14 minutos para se atingir uma dose letal. Segundo a pesquisa a que nos referimos acima, o álcool é a droga que mais causa danos para a sociedade e uma das mais perigosas aos usuários. O álcool é considerado pela OMS o principal problema das drogas do mundo - opinião compartilhada pelo governo de vários países.

A relação do álcool com a mortalidade dá uma ideia do perigo. “Em cada grupo de 100 mil habitantes, morrem por ano 4 pessoas por causa do uso de drogas ilícitas. Por causa do álcool, são 35. Estrago este provocado tanto numa relação onde bebe-se muito ao longo de anos ou bebe-se muito de uma só vez.

Um dos maiores prejuízos que o álcool representa para a sociedade vem na conta dos sistemas públicos de saúdes. No Brasil, por exemplo, gastou-se entre 1998 e 2001 sete vezes mais com internação de dependentes de álcool do que com a de dependentes de drogas ilícitas.

foto: Cynthia Dorneles



Nos países pobres e em desenvolvimento, o tabaco geralmente assume o lugar do álcool na lista das drogas mais danosas. As campanhas contra o tabaco nestes países ou não existiram ou não fizeram efeito e esta droga é um fardo para as pessoas, matando dezenas de milhares de usuários por ano. No mundo, o tabaco é a droga que mais mata: cerca de 5 milhões todos os anos.
Quando se levam em conta todos os riscos que as drogas representam apenas para os usuários, as mais nocivas são a heroína e o crack. As duas têm várias características em comum para permanecerem no topo desta avaliação: ambas causam intensa dependência física e química, com pouco tempo de uso. Uma vez viciados, os usuários dedicam cada vez mais tempo à droga, seja tentando obtê-la, seja se recuperando do uso. Rapidamente, estes indivíduos largam estudo e trabalho. O forte desejo por uma nova dose faz com que seus usuários sejam capazes de tudo para obtê-la novamente. Tráfico, roubo e prostituição são as saídas mais comuns. A violência envolvendo o crack ou a heroína mata mais que o próprio uso em si destas substâncias.

Mas voltemos no tempo e vejamos um pouco da História do consumo das drogas. Há vários indícios apontando para o fato de que o homem tenha usado plantas alucinógenas no Paleolítico Superior, entre 40 e 10 mil anos atrás. Não há como provar isto com evidências diretas porque o que se come, bebe ou fuma sai nas fezes e na urina, ambos materiais que rapidamente desaparecem sem deixar vestígios. O que atesta que o ser humano usava plantas estimulantes em cultos religiosos foram as pinturas que sobreviveram aos séculos e as cordas e tecidos derivados da Cannabis sativa, nome científico da maconha, e, a partir da invenção da escrita, relatos escritos sobre o assunto.

O imperador chinês Shen Nung, que viveu em torno de 2800 a.C. escreveu que “se o fruto da maconha for tomado em excesso, produzirá alucinações. Se for tomado a longo prazo, comunica com os espíritos e faz o corpo flutuar”.  O Atar Veda, texto sagrado hindu (próximo a 2000 a.C.) considera a maconha como uma das cinco plantas sagradas, fonte de alegria e prazer. Gregos e romanos misturavam a planta ao vinho e mirra em celebrações e os citas queimavam a planta dentro de vasos metálicos cheios de pedras em brasa, para inalar a fumaça produzida em pequenas “saunas” improvisadas.

O uso de drogas surge justamente a partir da busca do ser humano por alimento entre as plantas e seus frutos. Aos poucos, além do uso em celebração ou ritos religiosos (plantas para comunicação com as divindades), descobre-se também os fins medicinais da maconha, da papoula e da folha da coca. Ao longo dos séculos, mais e mais benefícios para a saúde do ser humano são descobertos, sobretudo em relação a maconha. Ela pode ser usada contra a pressão alta nos olhos para tratamento do glaucoma, contra dores, como anti-convulsivo, na esclerose múltipla, asma, doença de Chron e muitos outros distúrbios.

A partir dos anos 60, quando o princípio ativo da maconha, o THC, tetrahidrocanabinol é isolado. No final dos anos 80, é descoberto que temos no cérebro receptores para a molécula da maconha. O nosso cérebro é cheio de substâncias chamadas de endocanabinóides que são exatamente as produzidas pela maconha. Estas pesquisas são hoje a grande fronteira da Medicina.
Temos no nosso corpo receptores próprios que indicam claramente que produzimos substâncias semelhantes à maconha e que servem justamente para realocar a mente em um estado ideal. E é mentira que a maconha mate neurônios, pois se assim fosse, nosso próprio corpo sempre estaria matando neurônios já que produz canabinóides. Quanto a causar dependência, cientificamente só está comprovado que a maconha cause uma leve dependência psicológica, menor do que a causada pelo café.

Quanto ao senso comum de que a maconha seja uma porta de entrada para outras drogas, é mais um dos mitos sem comprovação científica. Sabe-se que a maconha é um relaxante, e a cocaina um estimulante, são drogas, portanto substância para usos bem distintos.

A grande maioria dos usuários de maconha não partiu para drogas mais pesadas e estudos apontam que usuários de maconha deixam de usá-la espontâneamente quando desejam, sem qualquer tipo de tratamento.  A maconha tem sido usada para retirar pacientes do uso de drogas mais pesadas.

O álcool é que pode ser uma porta de entrada para drogas mais pesadas. Mas a verdadeira porta de entrada é a própria proibição, já que o usuário de maconha que num dia vai ao traficante comprar seu fumo pode ouvir de seu traficante: “hoje não tenho maconha, mas tenho cocaína, crack, qual você quer? Experimenta isto aqui, ou isto!”. Esta é a verdadeira porta de entrada para drogas mais pesadas. A proibição, o Mercado negro, o traficante. Não a planta.  

Há duas ou três gerações atrás, estas mesmas drogas hoje proibidas, eram legais em todos os países do mundo. Quando algumas substâncias como o álcool e o tabaco foram liberadas, não houve uma comissão de cientistas estudando profundamente sobre isto. A razão de umas terem se mantido legais e outras terem se tornado ilegais nada teve a ver com os riscos e danos causados por essas ou aquelas mas sim com quem estava usando umas ou outras.

A mídia reverberou as decisões tomadas, não se aprofundou em História, Economia ou Política para fazer suas matérias e o pânico causado na população leiga e mesmo entre médicos foi a consequência natural destas matérias que só noticiavam o hoje e o ontem no momento em que se iniciou a guerra às drogas. As leis para a proibição de algumas substâncias não foram realmente baseadas em Justiça, na proteção dos indivíduos, em saúde pública, em resultados de pesquisas científicas sérias. Não. São leis fundamentadas na ignorância e no preconceito.

A História de como aconteceram estas probições tem de ser desenterrada e trazida à público para debate.

O cristianismo coloca o álcool (o vinho da Eucaristia) como divino, como herança da religião judaica. No século XIX, ocorre uma inversão disto. A partir de uma vertente do protestantismo, o culto metodista, fundado por John Wesley, que torna-se muito influente na Inglaterra e nos USA, o álcool em si mesmo é considerado como pecaminoso. Isto vem num crescendo até sua proibição em 1919, com a Lei Seca nos EUA. O álcool é proibido por quase catorze anos.

A Lei Seca é o primeiro exemplo de uma lei proibicionista. Mesmo tendo sido revogada na década de 30, ela é o paradigma do proibicionismo, que dela se serve como modelo. O aparato estadunidense usado para reprimir o álcool foi sendo realocado para agir contra outras drogas. Este puritanismo de controle do prazer da humanidade se tornou a posição dominante no século XX.

As outras drogas foram identificadas a populações minoritárias. Em 1870 e 1880, os principais usuários de drogas derivadas do ópio, eram senhoras brancas de meia idade. Nesta época, ninguém cogitou de fazer uma lei proibindo o consumo de ópio ou morfina. Mas quando os chineses vieram para a América, trabalhando 80, 90 horas por semana, nas estradas, nas minas, em todo lugar, e à noite fumavam seus cachimbos de ópio, como o faziam em seus países de origem - foi a partir daí que surgiu o medo do que estes chineses fariam com estas mulheres brancas e às crianças nestes contextos.

As primeiras leis contra a cocaína foram no sul, dirigidas aos negros que trabalhavam nas docas. O mesmo medo. A primeira lei contra maconha foi dirigida a americanos de origem hispânica e imigrantes mexicanos vindo para os EUA “roubar” os bons empregos dos brancos. O que fariam estes fumadores de maconha com as mulheres brancas?

A primeira reunião mundial sobre drogas aconteceu em 1912 para discutir a questão do ópio. Mas foi após a criação da ONU, em 1945, que três convenções sob o seu comando determinaram a linha de controle internacional de drogas que vigora até hoje. O modelo sustentado pelas convenções de 1961, 1971 e 1988 submete substâncias proibidas a um regime internacional de interdição. A meta seria a extinção das drogas. Mas as coisas não funcionaram desta forma.

Na década de 2000, os traficantes de cocaína passaram a usar barcos que são quase como submarinos para levar a droga aos EUA. Cada embarcação custa cerca de 2 milhões de dólares e é descartável: completa a missão e vai para o fundo do mar. Com uma carga de 200 milhões de dólares, o investimento compensa. O importante é que ninguém intercepte o carregamento de 10 toneladas de droga em pó. Já a cervejaria Americana Budweiser pagou cerca de 5 milhões de dólares para exibir um comercial de um minuto na TV em 2010, no intervalo do Super Bowl, finalíssima do futebol Americano. O valor é alto, mas também compensa. Afinal a empresa faz a mesma coisa há mais de 20 anos.

Esta é a diferença que o status legal cria na economia das drogas. Enquanto os negociantes de alguns empreendimentos fazem de tudo para aparecer, outros querem o máximo de discrição. Mas não importa se as drogas são proibidas ou permitidas por lei: sempre existe alguém querendo comprá-las e alguém querendo vendê-las. O comércio acontece e movimenta centenas de bilhões de dólares por ano.

A condição de uma droga perante a lei, no entanto, influencia o impacto que seu comércio tem sobre a economia. O de drogas lícitas impulsiona os mercados de comunicação, embalagens, transportes etc. O das substâncias proibidas compra armamentos e financia outros tipos de crimes, especialmente a corrupção. O Estado cobra impostos de quem comercializa drogas lícitas e e investe em segurança pública, sistemas penitenciários e penais para combater quem está por trás das drogas ilegais. Escreve Tarso Araújo:

"A corrupção é um ingrediente inseparável do tráfico de drogas. É ao mesmo tempo consequência e causa do comércio ilegal. O crime depende dela para crescer, mas, em seguida, lucra mais e pode pagar propinas ainda maiores a pessoas cada vez mais poderosas. É uma espiral crescente que, afinal, confunde as fronteiras entre o crime organizado e o governo, entre traficantes e políticos e policiais. Aos poucos as instituições que deveriam combater o crime estão a serviço dele.

Em Myanmar, seis conhecidos traficantes se elegeram para o Parlamento na polêmica eleição de 2010. No México, 22 prefeitos foram assassinados em 2009 e 2010, o que levanta suspeitas sobre quantos sobreviventes estão nas mãos dos cartéis. No mesmo país, um batalhão inteiro foi dissolvido ao descobrirem que ele protegia plantações de maconha e papoula. Quando se chega a este ponto, é difícil saber em quem confiar.

Seja lá quais forem sua origem e sua explicação, as utilidades da corrupção para os traficantes são claras- e muitas. Ela facilita ou viabiliza o transporte de drogas e lava dinheiro, além de comprar proteção, fugas, celulares na cadeia, informações sobre ações policiais, testemunhas, senteças e qualquer outro tipo de vantagem"

Em geral, quanto maior a demanda por drogas de um mercado e a dificuldade de chegar a ele, maior seu valor e é por isto que a Europa e os EUA são as meninas dos olhos dos traficantes de drogas. Mas a matemática dos preços pode ser um pouco mais complexa, como mostra o exemplo estadunidense em relação à cocaína. Além de ser um grande centro consumidor, o país investe bilhões de dólares por ano na repressão. A teoria por trás da "guerra" é tornar o produto escasso e, aumentando seu preço, desestimular o consumo. Na prática porém não é isto que acontece. Em curto prazo, os traficantes do varejo diluem a droga para preservar seus ganhos. Em longo prazo, a promessa de retorno incentiva o investimento dos atacadistas em novas rotas, novos fornecedores, novos métodos de transporte, mais propinas e outros mecanismos que possam aumentar a eficiência do negócio. Quer dizer, a redução da oferta acaba aumentando o prêmio para quem consegue colocar a droga lá dentro e torna o mercado ainda mais atraente”- escreve Tarso Araújo.

O tiro saiu pela culatra e mais e mais gente consome drogas no mundo inteiro. Segundo o discurso da ministra do Uruguai presente no debate pela descriminalização da maconha promovido pelo Viva Rio na Fiocruz em 2013, quando Mujica propôs a descriminalização da maconha, a população foi contra. Ele então colocou a proposta de lado e incentivou um debate racional, embasado em pesquisas histórico-políticas e econômicas sobre o assunto e hoje quase toda a população do Uruguai é favorável a medida de descriminalização.

Desde sua descriminalização no Uruguai, o índice de assaltos diminuiu, os cartéis se retiraram de lá e agora é o Estado que administra estas questões.

Nós somos um país maior e mais complexo que o Uruguai, com mais habitantes e maior diversidade cultural e política, mas mesmo assim, a descriminalização da maconha terá um impacto positivo em diversos campos.

Muito mais poderia ser dito, mas acho que estão expostos os principais elementos para um debate que certamente deve ser levado à todas as famílias, escolas e empresas do nosso país.

Ainda que somente o tempo dirá se a descriminalização do uso de drogas seja a saída para reduzir os danos à saúde decorrentes de seu abuso, o certo é que a guerra contra as drogas já revelou que a violência da repressão armada e policial não trouxe nem trará benefícios, a não ser para o próprio tráfico, os órgãos de repressão internacionais e a indústria de armamentos. O debate amplo, geral e irrestrito é o melhor remédio!

 
Retrato de Cynthia Dorneles por Roque LabancaCynthia Dornelles é graduada em Ciências Sociais (UFRJ) e Psicologia (USU), pós-graduada em psicanálise pelo CEPCOP/USU, shiatsuterapeuta e autora de Amante Ideal (2000), Os 1001 E-mails - Sherazade Conta Histórias Eróticas a um Marujo Solitário (2003) e da antologia +30 Mulheres que Estão Fazendo a Nova Literatura Brasileira. Gravou 3 CDs independentes como cantora e compositora: Minha Aldeia (1995), Cynthia Movimentos (2000) e Onde a Música Não Pára (2002). Blog: lucidolimpidoproparoxitono.blogspot.com/
Site: http://www.cynthiadorneles.com.br