Revista Êxito na Educação

A Beleza e a Mulher

por Cynthia Dorneles


De onde vem nosso desejo pelo belo? E por que as mulheres vieram se escravizando a esta noção de beleza, a ponto de várias se submeterem a cirurgias de risco e morrerem no processo?

Freud tem em relação à beleza uma posição ambígua como nos indicam alguns parágrafos do seu livro “Mal Estar na Civilização”.  Ele situa a fruição da beleza não apenas como fonte de felicidade mas como algo tenuemente intoxicante, entretanto diz que “A beleza não conta com um emprego evidente; tampouco existe claramente qualquer necessidade cultural sua. Apesar disso a civilização não pode dispensá-la” (Freud, Sigmund, in Mal Estar na Civilização, p.90). E ele constata que belo é o que atrai o olhar.  

“A estética como um saber ou uma disciplina da Filosofia surgiu no século XVIII quando o filósofo alemão Alexander Baumgarten elaborou a primeira teoria estética sistemática. Baumgarten introduziu o termo estética inspirando-se na palavra grega aisthesis que deve, corretamente, ser traduzido por sensação ou percepção sensível.” (Medeiros, Sergio Aguiar in Estética Angústia e Desejo, p. 69)

Na natureza, as fêmeas em geral são as mais “feinhas” ou as mais invisíveis. Isto tem uma razão de ser: a proteção dos filhotes. Se a fêmea chamasse a atenção sobre si, colocaria em risco sua descendência, sua perpetuação como espécie. “Os pássaros machos são criaturas de espetacular ostentação, tanto na plumagem quanto no porte, em parte para impressionar as fêmeas e vencer os rivais, em parte para desviar os inimigos do ninho. Entre os seres humanos, a exibição do macho é igualmente extrema, mas pela primeira vez a fêmea se torna um objeto de pródiga beleza. Por quê? A fêmea se enfeita não só para aumentar seu valor enquanto propriedade, como gostaria de desmitificar o marxismo, mas para assegurar sua desejabilidade.” (Paglia, Camille in Personas Sexuais, p. 26)

A fêmea humana, buscando chamar a atenção do olhar sobre si caminha num sentido contrário ao da maioria das outras fêmeas na natureza. Trata-se aqui do fato muitas vezes debatido de que somos seres da cultura e não do instinto puro e simples.  Sem a cultura nossa espécie teria perecido há muito tempo. O homem transforma o mundo à sua volta criando, a um só tempo, as coisas que lhe permitem a sobrevivência como, ao criar estas coisas, estas o modificam e ele passa da condição de bicho a homem.

Ferenczi, um dos íntimos colaboradores de Freud, fala da substituição do nariz animal pelo olho humano devido a nossa posição ereta. E este estar ereto teve vários efeitos diferentes sobre nós. Para os estudiosos de como se formou a mente humana foram encontradas evidências de que foi por ficar em pé e por aumentarmos nosso consumo de proteínas que nosso cérebro pode se desenvolver da forma particular como nós humanos nos desenvolvemos. Quem quiser saber mais sobre este aspecto, indico o livro A Pré-História da Mente de Steven Mithen.

Ficarmos de pé nos afastou da terra, de visões e cheiros que a estética desenvolvida em nossa cultura não enquadrou como sendo belo, desejável. A percepção estética que se desenvolveu preponderantemente em nossa cultura foi associada a elementos cada vez mais distantes da natureza, a que costumamos chamar de bela, mas que na prática não é apenas bela.

Não é belo o espetáculo do eterno devorar de uns pelos outros que impera na natureza, não é belo o apodrecimento das coisas, e há muitas coisas naturais cuja estética se volta mais para o grotesco do que para o belo. É bela uma paisagem: quanto mais olhamos tudo do alto, sem entrar no detalhe.

A mulher é mais presa a sua condição natural que o homem. A mulher tem regras sanguinolentas e não-estéticas todos os meses. A mulher engravida e a gravidez inclui vômitos e muitos aspectos que igualmente não se enquadram neste belo-distante-da-natureza. A mulher à medida que envelhece tem retenção de líquidos, transformando o que antes eram finas silhuetas em gordas curvas. A mulher engravida, suas formas são completamente alteradas. E o parto… basta se dizer que há quem desmaie ao ver todo aquele sangue.

Talvez esta escravização da mulher à beleza, esta “obrigação” de ser bela se refira antes de tudo a isto: a dificuldade de distanciar a mulher da natureza.  A mulher é a natureza, quer deseje isto, quer não. E o que é considerado belo é justamente o que se distancia dos aspectos brutais da natureza.
A menina anoréxica não apenas está tentando se enquadrar num modelo de beleza contemporâneo esdrúxulo - o das mulheres que praticamente não comem, são magras demais e entretanto são tidas como desejáveis - como igualmente quer negar a realidade que se impõe aos seus olhos vendo sua mãe, suas tias, as mulheres mais velhas de sua família que, mesmo magras, trazem os óbvios sinais da feminilidade quando a juventude vai passando. A menina anoréxica quer se libertar dos traços da natureza que sobre ela se impõem. O homem criou uma “contranatureza” que torna-se ao mesmo tempo objetivo e obsessão para todos, principalmente para as mulheres.

O que é considerado belo varia no tempo e no espaço. A beleza não é universal nem absoluta, nem eterna, ao contrário do que nos dizia Platão em O Banquete. Olhando as pinturas de Peter Paul Reuben, pintor do período barroco (final do século XVI até o XVIII), as mulheres tidas como belas eram todas gordas e com celulite, para os padrões contemporâneos. Entretanto, estas mulheres gordas eram consideradas como sendo as belas naqueles tempos. A concepção da beleza é em geral, datada.

Somos uma sociedade etnocêntrica que considera os traços do rosto de todos os que não são brancos como fora do que é tido como belo. Belos, seguindo estes princípios convencionais, são os indivíduos da raça branca, de preferência louros, magros, cabelos lisos e olhos azuis. Princípios estes que são questionados já há muitos séculos e cada vez mais. Para David Hume, por exemplo, a beleza não é uma condição objetiva das coisas, mas sim uma percepção da mente. O belo então é entendido como uma projeção por parte de quem olha algo para aquilo que vê. Esta afirmação combina com a de Auguste Rodin que dizia: “Em suma, a beleza está em toda parte. Não é ela que falta aos nossos olhos, mas nossos olhos que falham ao não percebê-la”. Quem melhor do que um grande escultor para nos falar sobre a beleza?

A frase de Rodin nos faz pensar sobre se existe mesmo a feiura. Talvez não exista a feiura e sim aquilo que percebemos como triste, aquilo que percebemos como desagradável ou grotesco e que chamamos de feio. Só que aí temos novas indagações surgindo.

Numa sociedade que tornou-se midiática por natureza, onde saímos das três dimensões onde podemos perceber calor, animação, peso, energia e entramos para um universo unidimensional; que enquadra algo, que faz crer ser real - mas que em verdade não é real, é apenas enquadramento, ponto de vista - e submete tudo a um discurso raso de leitores apressados, a angústia toma conta de boa parte dos indivíduos que se sentem inadequados. Afinal, ninguém é Gisele Bündchen, nem a própria Gisele Bündchen, pois aquela que vemos na foto é a foto editada, onde não aparecem nenhum dos sinais humanos da mulher Gisele Bündchen, porque tudo foi alterado tanto pelo enquadre feito pelo fotógrafo como pelos processos de um programa chamado Photoshop. Numa sociedade assim, a angústia e a ansiedade são causa e consequência do vazio.

Referências:
Medeiros, Sergio Aguiar de. Estética Angústia e Desejo, Juruá Editora, 2012, Curitiba.
Mithen, Steven. A Pré-História da Mente, 1998, Editora UNESP, SP.
Freud, Sigmund. Mal Estar na Civilização, 2006, Imago Editora, RJ.
Paglia, Camille. Personas Sexuais, 1992, Companhia das Letras, SP.

Retrato de Cynthia Dorneles por Roque LabancaCynthia Dornelles é graduada em Ciências Sociais (UFRJ) e Psicologia (USU), pós-graduada em psicanálise pelo CEPCOP/USU, shiatsuterapeuta e autora de Amante Ideal (2000), Os 1001 E-mails - Sherazade Conta Histórias Eróticas a um Marujo Solitário (2003) e da antologia +30 Mulheres que Estão Fazendo a Nova Literatura Brasileira. Gravou 3 CDs independentes como cantora e compositora: Minha Aldeia (1995), Cynthia Movimentos (2000) e Onde a Música Não Pára (2002). Blog: lucidolimpidoproparoxitono.blogspot.com/