Revista Êxito na Educação

Educação: é preciso meditar

Capa da Edição 6 da Revista Êxito na Educação (Ano I - Janeiro-Fevereiro de 2014)Sumário:


As experiências bem sucedidas em educação costumam destacar-se de duas formas distintas: ou as escolas são eficientes no cumprimento de uma agenda voltada para a excelência - quase sempre orientada ao mercado e construída nos estritos cânones do capital - ou são libertárias, propõem a mudança e a transformação a partir da educação da sensibilidade, da imersão em propostas pedagógicas centradas no indivíduo inserindo-o num contexto solidário, colaborativo, criativo e mais humanizado. Estas últimas podem até defender em seus projetos político-pedagógicos uma mudança de paradigma, uma visão sistêmica que transforme a sociedade numa realidade mais justa e menos desigual, porém com frequência são capturadas pela lógica daquelas primeiras.

Há entretanto um grande contingente de escolas em nosso país que não se enquadram em nenhum desses dois, digamos, extremos. São mal equipadas, os professores mal remunerados, os alunos desmotivados e (sobre)vivem em comunidades desassistidas pelo poder público e alijadas de muitos de seus direitos fundamentais e constitucionais: moradia, saneamento, segurança, saúde e, claro, educação.

Contudo sempre encontramos gente que faz a diferença sem esperar pelo poder público. Um belo exemplo é a experiência bem sucedida de educação colaborativa no sertão do Ceará que completa 20 anos e pode ser conhecida no artigo Educação solidária e cooperativa: uma “prece” que não espera vir de cima.

O fato inegável é que devemos refletir profundamente sobre o tipo de sociedade que estamos reproduzindo através das escolas que escolhemos oferecer aos nossos filhos e aos filhos de nossos concidadãos menos favorecidos. É preciso meditar sobre o fato de que a educação no Brasil sempre foi um reflexo da desigualdade e injustiça presentes em outras esferas e talvez seja a expressão mais nefasta e perversa dessa realidade.

Neste ano de 2014 que se inicia, trazemos em nossa sexta edição uma entrevista exclusiva com a educadora e psicóloga Claudiah Rato, autora do livro “Meditação Laica Educacional - para uma educação emocional”. Seu relato sobre uma experiência que desenvolveu de 2006 a 2009 no Colégio Pedro II e que, por seus resultados, vem se replicando em outras unidades e escolas, é um alento para tantos de nós que acreditamos que é preciso buscar “dentro” as mudanças necessárias.

Além de aumentar a concentração nos estudos, reduzir o estresse e a ansiedade nas provas, melhorar as relações interpessoais e desenvolver uma cultura da paz, a Medita­ção é um poderoso catalizador da criatividade e da inovação, promove a solidariedade e a cooperação, desarma os espíritos, restaura o equilíbrio e a saúde física, mental e emocional. Nestes tempos de hiperconsumo desenfreado e insustentável, tempos de isolamento hiperfocado em dispositivos móveis e na virtualidade das redes sociais (a ponto de desenvolver condutas aditivas com relação a estas tecnologias), talvez fechar os olhos e mergulhar dentro de nós mesmos possa ser a saída que buscamos e que alguns povos conhecem há milênios.

Até o cineasta David Lynch criou uma fundação dedicada a fomentar a implementação da meditação transcendental nas escolas e em outros espaços, como nas forças armadas, em hospitais, etc. Dedicamos um espaço para mostrar os resultados que o autor de Blue Velvet e Mulholland Drive vem alcançando com sua iniciativa. A psicóloga, psicanalista e psicopedagoga Ana Carolina Grether compartilha conosco suas impressões em Meditando Em Águas Profundas com David Lynch, acerca do livro homônimo do cineasta lançado no Brasil em 2008.

O psicólogo clínico Ricardo Alexandre Mendonça também nos oferece seu depoimento - A meditação na cura, no trabalho e na escola - acerca do emprego que vem fazendo da meditação entre seus pacientes. Os benefícios são imensos e potencializam os resultados positivos de qualquer que seja a linha de psicoterapia a que o paciente se submeta.

Cynthia Dorneles, nossa cientista social, psicóloga e psicanalista, cantora e escritora, desta vez aborda o tema d’A Beleza e a Mulher e nos faz pensar sobre o porquê de tantas mulheres sucumbirem à ditadura de certos padrões de beleza (até inal­cançáveis pois resultam de retoque digital) e submetem-se de forma abusiva a cirurgias estéticas de alto risco. Curiosamente, a mulher brasileira está entre as que mais se submetem a cirurgias para colocação de implantes e próteses. É preciso meditar se não estaria também em parte nas mãos de uma educação orientada à consciência, desconstruir o absurdo de certos padrões impostos unicamente pela lógica de um mercado que lucra bilhões com essas práticas.

Por fim, nossa parceira e colaboradora Alzira Costa, psicóloga especializada na Terceira Idade, nos fala sobre a resiliência (ou capacidade de enfrentar desafios) no processo do envelhecer. Vivemos numa cultura que não sabe lidar com a velhice, com o processo natural do envelhecimento, que é parte da vida e precisa ser resignificado, ao invés de sucumbirmos à ditadura da “juventude à qualquer custo”. O artigo de Alzira nos faz meditar, idosos ou não, sobre como é possível “envelhecer em cima do salto”. Leitura imperdível sobre educação emocional.

Boa leitura e meditação!

Ricardo Paes, editor
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