Revista Êxito na Educação

Escola da Ponte: a diferença está na atitude

por Karla Bohac


O dia em que cheguei

‘’A escola que sempre sonhei, sem imaginar que pudesse existir’’. (Rubem Alves)


Concluída a faculdade de psicologia, me interroguei sobre o futuro. Aonde eu gostaria de trabalhar, com que público-alvo eu me identificava e qual seria a minha motivação para tal. Estas eram indagações que surgiam na minha cabeça em noites mal dormidas e em conversas familiares à mesa do jantar.

Em um mundo repleto de exigências e em uma velocidade em que tudo muda a todo instante, torna-se difícil respeitarmos nossas singularidades e processos - acabamos nos formatando a modelos e seguindo padrões para dar conta das exigências. Nessa padronização acabamos por seguir receitas de como se deve ser. E quando se trata de mudanças profundas como profissional surge um medo, pois recomeçar parece não ser possível. Eu mesma resisti. Tentei me encontrar nos caminhos traçados pela psicologia, porém, não me sentia satisfeita.

Passei por trabalhos voluntários cuja didática era a educação não formal; fui monitora de “Psicologia e Educação” na faculdade e dei aulas sobre judaísmo para crianças e adolescentes. Sempre sorrindo, ensinava e aprendia com os meus educandos. Sinto que a resposta em meio a tantas dúvidas e incertezas surgiu de repente no meu coração. Eu queria dar voz aos educandos, eu queria dialogar olhando nos olhos deles. O que eu queria era lutar por outra proposta de educação, na qual os educandos pudessem ter prazer em aprender junto ao professor.


A resposta por onde deveria buscar minha felicidade pulou do meu coração, assim como pulei de alegria ao passar para o Mestrado em Ciências da Educação na Universidade do Porto, em Portugal.

A decisão de aplicar para o Mestrado em Portugal carregava não só um grande passo de especialização acadêmica, como também a realização de um grande sonho. E é aí que eu quero chegar.

Desfrutando o livro de Rubem Alves A escola que eu sempre sonhei, sem imaginar que pudesse existir, referido à Escola da Ponte, minha vontade de conhecer essa escola era tão grande, que logo fiz as malas. Sabe como se realiza um sonho? Indo-se atrás dele. Não tem mistério.

Em um mês, após o resultado do Mestrado eu já estava em Portugal, onde a Escola se encontra. Depois de e-mails mandados e inúmeros telefonemas feitos à escola, eu consegui, eu estava lá!

A Escola da Ponte apresenta uma ideologia nada tradicional. Sem divisão de séries por idade ou ano e sem avaliações homogêneas, a escola respeita e valoriza o protagonismo do aluno, para que ele, orientado pelos professores, pense e decida qual será o seu processo educativo. Os alunos sentam em pequenos grupos de estudo ao redor de uma mesa onde todos podem se olhar, dialogar e se ajudar, por mais que cada um esteja fazendo um exercício de diferentes matérias.

Jardim de infância associado ao Movimento da Escola ModernaA estrutura da escola é diferente. Esta encontra-se explicada na maioria dos livros e artigos que a descrevem. Porém, o que muitos não sabem é que o seu diferencial vai além da estrutura e da organização do espaço e do tempo. O diferencial da escola está nas atitudes.

Os professores educam com a alma. Os alunos aprendem através do exemplo dos comportamentos deles. Se o aluno para falar precisa levantar o dedo, o professor também precisa. O ensino-aprendizagem ocorre em via de mão dupla.

Posso dizer que os pilares desenvolvidos na escola são: autonomia, responsabilidade, respeito e solidariedade. Esses quatro compromissos não estão necessariamente escritos em nenhum livro e não estão juntos e expostos em nenhuma teoria específica. Eles são despertados e trabalhados no dia a dia da escola naturalmente. As ações educativas propostas pelos educadores aos alunos ocorrem espontaneamente e assim levam a estes compromissos.

Compartilho algumas vivências que demonstram como pequenas atitudes podem trazer grandes aprendizagens e grandes valores:

1 - Durante a minha rotina na Escola da Ponte, fiquei a maior parte do tempo acompanhando as crianças de seis anos de idade.

Em uma manhã, uma surpresa nos esperava no espaço de trabalho. No quadro havia o desenho de um dinossauro. O desenho era anônimo, porém, com uma mensagem: ‘’NÃO APAGAR’’. Quando a professora chegou ao espaço, logo olhou para o desenho e começou a admirá-lo. Com o tempo, outros professores foram entrando no espaço e mais elogios ao desenho foram feitos (eu poderia parar de escrever por aqui: a valorização que os professores deram ao desenho já me comovera, todavia a minha comoção só fez aumentar).

Os alunos sentaram em seus lugares e, juntos com a professora, decidiram que queriam aprender a ler e a escrever naquele dia. A professora então teve uma grande ideia: usar o desenho como uma ferramenta de trabalho. Todos se sentaram perto do quadro e antes da professora ler o que estava escrito no balão em cima do desenho, pediu para que todos imaginassem o que estava escrito ali. Nesse momento ouvimos diferentes falas para o dinossauro: a criatividade estava solta! Depois, muitos exercícios foram feitos com o desenho.

Enfatizo a importância do exemplo na educação. Dessa vez, um exemplo criativo da professora, levou ao desenvolvimento criativo dos alunos.

2 - Sexta feira é dia de assembleia. Dia no qual todos os alunos da escola e os professores vão ao auditório dialogar sobre como foi a semana. O que eles gostaram ou não gostaram. Dia para apresentar trabalhos feitos pelos alunos e discutir propostas sempre pensadas para o aprimoramento da escola.

Em uma das sextas feiras, os alunos foram ao auditório para decidir quais seriam as responsabilidades deles mesmos perante a escola. Três alunas mais velhas assumiram a palavra, um aluno de doze anos era o responsável por passar os slides do Power point e outro aluno da mesma idade era o encarregado do microfone. Os professores estavam sentados com os alunos, mas quem comandava e quem mais participava eram os alunos. Ver crianças de seis anos ate dezesseis anos levantando a mão para opinar foi encantador.

Olhei para o lado e vi uma menina de seis anos dormindo. Era depois do almoço e ela deveria estar bem cansada. Depois de um instante, reparo que uma das professoras também viu a menina adormecida. Do que conheço sobre a relação professor-aluno em um contexto escolar, sabia que ela ia ser acordada naquele mesmo momento para voltar a prestar atenção. A professora se levantou, foi em direção à menina, tirou o seu próprio casaco e a cobriu, para que ela pudesse descansar melhor.

Curso sobre o Método Montessori, em Madrid3 - Em um dia qualquer, os alunos já estavam sentados em suas mesas. Alguns já tinham começado a fazer seus deveres e outros pareciam ainda estar acordando. Uma professora, já sentada em um dos grupos ajudando um aluno, olhou ao redor e fez uma cara de quem não estava satisfeita. Ela levantou e foi até o som que estava na sala. De repente uma musica alta atravessa todo o espaço de trabalho e todos imediatamente olham para a professora. Ela diz que estavam todos dormindo, que para trabalhar precisamos acordar nosso corpo e nossa mente. Ela começa a dançar e em menos de dez segundos mais da metade dos alunos e dos professores já estavam de pé dançando. Depois de dois minutos de danças e risadas entre todos, o clima mudou e todos começaram a trabalhar mais felizes e com certeza mais despertos.

Depois de quatro meses de estágio observando a dinâmica da escola, posso dizer que quem faz a escola ser do jeito que ela é e quem cria a histária, a teoria e os métodos de ensino que devem ser utilizados, são os próprios alunos, os professores, os funcionários e os pais. Juntos, como uma equipe multidisciplinar são eles que pensam e definem o que é o melhor para a educação de cada aluno e para a educação do grupo.

Acredito que respirei a Escola da Ponte. Seu ar educacional, a estrutura democrática, o protagonismo dos alunos. Respirei com os alunos no alongamento feito por eles todos os dias depois de dar o número de saltos de acordo com o dia da semana. Respirei o respeito, as responsabilidades e, principalmente, uma educação com valores, diretos e deveres.

Além de nós, humanos, sermos capazes de respirar aprendi com uma aluna de oito anos o motivo de todos os armários dos alunos terem buraquinhos na parte de baixo, “os buraquinhos estão ali, pois as nossas coisas precisam respirar também”.

Na escola todos aprendem respirando e respiram aprendendo, não só nos espaços de trabalho. Uma escola que preza uma educação para a vida, convida os alunos o tempo todo a descobrir e a despertar suas curiosidades, seus desejos e seus próprios interesses. Uma escola que preza uma educação para a vida como a Escola da Ponte, valoriza o aluno, incentiva-o e contribui na sua formação como cidadão critico e ético perante a sociedade.

Alguns questionamentos passaram pela minha cabeça durante o meu estágio:
Será que na Escola da Ponte os alunos sabem o que são comparações? Por exemplo: Por que uma escola onde crianças e adolescentes com diferentes perfis, idades e conhecimentos que estudam e trabalham sempre juntos precisam saber o que é uma escola inclusiva? Para eles, todos estudam juntos, as diferenças e os preconceitos existem, mas não são fomentadas neste espaço, o que predomina é o respeito. Por que em uma escola onde cada um pode trabalhar no seu ritmo, onde cada um faz uma avaliação quando se sentir preparado e cada um faz a sua auto avaliação no final de todos os dias precisa saber o que é competitividade? Na educação física, por exemplo, existem jogos de equipe, mas o objetivo não é o chegar ao primeiro lugar. O objetivo é que todos cheguem. As crianças torcem por todos. Se alguém tem alguma dificuldade, os outros correm para oferecer ajuda. O pensamento é: vamos ganhar, mas vamos ganhar juntos! Nos espaços de trabalho é igual, a primeira ajuda não e a do professor, e sim dos outros alunos que se dispõem a ajudar.

E o mais importante é que cada um trabalhe no seu tempo. Afinal é assim que se desenvolve a autonomia: se conhecendo e sabendo até onde pode ir naquele momento para que todos os dias eles mesmos possam descobrir suas competências e habilidades. O prazer em aprender e ensinar surge de cada um.

Antes de me despedir de todos na escola, fiz uma surpresa para as crianças como forma de retribuição pelos meses instigantes que todos me proporcionaram. Preparei um livro infantil onde pude contar o meu percurso na escola através de uma história. A decisão de preparar o livro veio de uma grande aprendizagem adquirida e visualizada na escola: a importância da troca, do compartilhar. Todos são dotados de aprendizagens que contribuem na educação de todos. Essa é a Escola da Ponte. Uma escola de todos e para todos.

Ter feito parte dessas historias foi um grande privilégio. A Escola da Ponte me transformou para cada novo passo dado. A Escola da Ponte construiu novas pontes na minha caminhada. Ao tecer essa escrita percebo como essa experiência foi viva, rica pelos seus encontros.

Depois do meu estágio feito na Escola da Ponte, pude refletir sobre o que eu acreditava que seria o ideal para a educação dos alunos. Desse modo, pude afirmar e reafirmar a minha opinião sobre a importância que as escolas deveriam dar à inserção de valores democráticos, de espaços que permitam ao aluno desenvolver sua responsabilidade e autonomia, do diálogo horizontal entre professor-aluno, de momentos cooperativos e não competitivos e, principalmente, fazer com que o aluno se sinta parte e contribua de maneira efetiva no seu processo educativo.
 
Uma das questões que me incentivaram na escolha do tema da minha dissertação, foi a crença de que estes princípios citados acima devem ser despertados, descobertos e desenvolvidos nos alunos a partir da educação infantil, e não somente nas escolas. No ano em que eu realizei o estágio na Escola da Ponte, não existia educação infantil. Por esse motivo, decidi encerrar o estágio em busca de Modelos Curriculares Alternativos voltados para a educação infantil com o objetivo de averiguar se a participação e o respeito à palavra e às escolhas das crianças existem e como são trabalhados. Concordando com Paulo Freire, utilizo um dos títulos de seus livros, porém deslocando-o para a criança na formulação do título da minha tese. Escrevo sobre “A educação infantil como prática de liberdade: o desenvolvimento da autonomia da criança no jardim de infância”. Como contextualização teórica, descrevo quatro modelos curriculares.

Desde o começo do mestrado me incomodei e me interroguei sobre a validade de uma escrita sem de fato conhecer sobre o que eu estava escrevendo. Logo associei a prática educativa incentivada nos alunos e encontrada na maioria das escolas e infelizmente nas faculdades: escrever só para receber uma nota, escrever só para fazer um trabalho e depois nunca mais voltar ao assunto, escrever pesquisando no Google e, logicamente, copiar e colar, decorar sobre um tema e escrever, e por ai vai.

Como eu não concordo com esse tipo de didática, decidi fazer diferente. Depois de conhecer a Escola da Ponte e uma turma de Jardim de Infância associada ao modelo curricular do Movimento da Escola Moderna ambos em Portugal, resolvi viajar e conhecer de maneira mais aprofundada sobre os Modelos que eu resolvera descrever. Atualmente, estou morando em Madrid, Espanha, na companhia do meu namorado, com o objetivo de compreender o método Montessori. Realizei um curso sobre o Método e irei observar uma turma de um jardim de infância Montessoriano. Irei a Reggio Emilia, na Itália, para também conhecer seu modelo pedagógico e como são trabalhados na prática.

Deixar a família, os amigos, o trabalho e o Rio de Janeiro não foi fácil. Porém, ir atrás de um sonho, incentivada pelos meus pais, com o intuito de voltar capacitada e com ideias inovadoras para a educação brasileira significa para mim, felicidade e satisfação. Voltarei com uma bagagem vivenciada e com muita vontade de lutar por uma educação de qualidade, para todos, desde a educação infantil.

Curso sobre o Método Montessori, em Madrid
Jardim de infância associado ao Movimento da Escola Moderna

foto de Karla BohacKarla Bohac é psicóloga formada pela Puc-Rio, mestranda em Ciências da Educação na Universidade do Porto com dissertação em desenvolvimento intitulada: A educação infantil como prática de liberdade: o desenvolvimento da autonomia da criança no jardim de infância. E- mail: O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.


Algumas informações sobre a Escola da Ponte nas palavras de seu idealizador: José Pacheco.
Retirada do site: http://revistaescola.abril.com.br/formacao/formacao-inicial/jose-pacheco-escola-ponte-479055.shtml

‘’Até 1976, a escola era igual a qualquer outra de 1ª a 4ª série. Cada professor ficava em sua sala, isolado com sua turma e seus métodos. Não havia comunicação ou projeto comum. O trabalho escolar era baseado na repetição de lições, na passividade. Naquele ano, havia três educadores e 90 estudantes. Em vez de cada docente adotar uma turma de 30, juntamos todos. Nosso objetivo era promover a autonomia e a solidariedade. Antes disso, porém, chamamos os pais, explicamos o nosso projeto e perguntamos o que pensavam sobre o assunto. Eles nos apoiaram e defendem o modelo até hoje.

Lá não há séries, ciclos, turmas, anos, manuais, testes e aulas. Os alunos se agrupam de acordo com os interesses comuns para desenvolver projetos de pesquisa. Há também os estudos individuais, depois compartilhados com os colegas. Os estudantes podem recorrer a qualquer professor para solicitar suas respostas. Se eles não conseguem responder, os encaminham a um especialista.

 

Não há salas de aula, e sim lugares onde cada aluno procura pessoas, ferramentas e soluções, testa seus conhecimentos e convive com os outros. São os espaços educativos. Hoje, eles estão designados por área. Na humanística, por exemplo, estuda-se História e Geografia; no pavilhão das ciências fica o material sobre Matemática; e o central abriga a Educação Artística e a Tecnológica.’’