Revista Êxito na Educação

Superdotados: a educação para as altas habilidades

O Brasil já foi chamado de “crematório de cérebros” pelo senador Cristovam Buarque, em função do descaso com que tratamos o problema da educação entre nós. Segundo ele, incineramos em massa centenas de milhares de possibilidades de excelência intelectual e artística todos os dias, simplesmente impedindo que nossos Prêmios Nobel, nossos gênios e milhares de indivíduos super talentosos possam se desenvolver. Desta forma, obras-primas são destruídas antes que possam existir.

Num país onde crianças e jovens apresentam baixo nível de letramento, quem escreve um livro aos oito anos é considerado superdotado ou “gênio". Encontrar uma criança ou jovem com um interesse precoce para a leitura - para nós que somos pais e/ou educadores convivendo com tão graves distorções e desigualdades - nos enche de esperança no futuro, ainda mais se observamos uma extraordinária dedicação à literatura, demonstrando paixão pela escrita e talento acima da média. Nestes casos, trata-se claramente de uma alta habilidade, também chamada de superdotação.

Gaiolas ou Asas?

por Cynthia Dornelles


O filhote humano - dadas as particularidades de nossa espécie, que vão desde o fato de ser a única a se manter em posição vertical mesmo quando caça até o uso da palavra - tem um dos mais longos períodos de aprendizagem. Mesmo quando já sabe andar, mesmo quando a força dos seus músculos lhe permite que seja autônomo em sua sobrevivência, ele continua seu processo de educação ainda por muitos anos. Aliás, há que se pensar se este processo de educação de fato termina algum dia no mundo humano, sujeito a ter tudo transformado em questão de cinco anos.

Num tempo em que Carta Capital, uma das revistas mais sérias do Brasil sobre política, economia e cultura, dedica uma série de artigos sobre o “Vazio da Cultura - Ou Imbecilização do Brasil” (número 734, de 06/02/2013 - http://www.cartacapital.com.br/revista/734) questionando onde é que foram parar escritores como Guimarães Rosa ou Gilberto Freyre, ou um pintor feito Candido Portinari, historiadores como Raymundo Faoro, cronistas feito Nelson Rodrigues na contemporaneidade tupiniquim, é bastante oportuno se pensar sobre Educação e qual o papel do psicoterapeuta, psicanalista, psiquiatra e quantos mais “psi” possam existir nisto tudo.

"A principal meta da educação é criar homens que sejam capazes de fazer coisas novas, não simplesmente repetir o que outras gerações já fizeram. Homens que sejam criadores, inventores, descobridores. A segunda meta da educação é formar mentes que estejam em condições de criticar, verificar e não aceitar tudo o que a elas se propõe" nos diz Jean Piaget, um dos maiores pensadores do século XX.

Se os desejos inconscientes do homem são o seu destino, como nos diz Sigmund Freud, uma das funções do psicólogo seria a de facilitar o surgimento do desejo em cada um e que o sujeito lide com isto da forma como lhe for possível. Uma pessoa que assume seu estilo, sem dúvida pode se tornar alguém nos moldes que nos aponta Piaget. Neste sentido, a função dos “psi” em geral é uma função também educadora.

Rubens Alves tem um texto muito bonito sobre escolas e educação em que diz que há escolas que são gaiolas e há escolas que são asas.

 As escolas que são gaiolas existiriam para que os pássaros desaprendessem a arte do voo. Pássaros engaiolados são pássaros sob controle. Uma vez engaiolados, o seu dono pode levá-los para onde quiser. Pássaros engaiolados sempre têm um dono. Deixaram de ser pássaros, porque a essência dos pássaros é o voo.

 Escolas que são asas não amam pássaros engaiolados. O que elas amam são pássaros em voo. Existem para dar aos pássaros coragem para voar. Ensinar o voo, isso elas não podem fazer, porque o voo já nasce dentro dos pássaros. O voo não pode ser ensinado, só pode ser encorajado”.

Um bom “psi” - psicólogo, psicoterapeuta, psicanalista - encoraja o voo e assim possibilita que surjam tanto cidadãos quanto novos produtores de cultura.

Retrato de Cynthia Dornelles por Roque LabancaCynthia Dornelles é graduada em Ciências Sociais (UFRJ) e Psicologia (USU), pós-graduada em psicanálise pelo CEPCOP/USU, shiatsuterapeuta e autora de Amante Ideal (2000), Os 1001 E-mails - Sherazade Conta Histórias Eróticas a um Marujo Solitário (2003) e da antologia +30 Mulheres que Estão Fazendo a Nova Literatura Brasileira. Gravou 3 CDs independentes como cantora e compositora: Minha Aldeia (1995), Cynthia Movimentos (2000) e Onde a Música Não Pára (2002). Blog: lucidolimpidoproparoxitono.blogspot.com/

Escola da Ponte: a diferença está na atitude

por Karla Bohac


O dia em que cheguei

‘’A escola que sempre sonhei, sem imaginar que pudesse existir’’. (Rubem Alves)


Concluída a faculdade de psicologia, me interroguei sobre o futuro. Aonde eu gostaria de trabalhar, com que público-alvo eu me identificava e qual seria a minha motivação para tal. Estas eram indagações que surgiam na minha cabeça em noites mal dormidas e em conversas familiares à mesa do jantar.

Em um mundo repleto de exigências e em uma velocidade em que tudo muda a todo instante, torna-se difícil respeitarmos nossas singularidades e processos - acabamos nos formatando a modelos e seguindo padrões para dar conta das exigências. Nessa padronização acabamos por seguir receitas de como se deve ser. E quando se trata de mudanças profundas como profissional surge um medo, pois recomeçar parece não ser possível. Eu mesma resisti. Tentei me encontrar nos caminhos traçados pela psicologia, porém, não me sentia satisfeita.

Passei por trabalhos voluntários cuja didática era a educação não formal; fui monitora de “Psicologia e Educação” na faculdade e dei aulas sobre judaísmo para crianças e adolescentes. Sempre sorrindo, ensinava e aprendia com os meus educandos. Sinto que a resposta em meio a tantas dúvidas e incertezas surgiu de repente no meu coração. Eu queria dar voz aos educandos, eu queria dialogar olhando nos olhos deles. O que eu queria era lutar por outra proposta de educação, na qual os educandos pudessem ter prazer em aprender junto ao professor.

Ano I - Número 5

capa da edição Ano I Número 5 de nov/dez de 2013Nesta quinta edição temos o tema da superdotação e da educação para as altas habilidades. Contamos a história do jovem escritor Nichollas Schmidt que lança seu terceiro livro de aventuras Gabriel e a Batalha de Dark Night aos onze anos. Apresentamos também algumas reflexões sobre o que pode ser feito para estimular talentos como os dele entre as crianças e jovens brasileiros. O que falta para o Brasil elevar seus ainda medíocres níveis de letramento? Que modelos poderiam ser seguidos?

Neste ano em que a Escolinha de Arte do Brasil, fundada em 1948 por Augusto Rodrigues completa 65 anos, nos cabe lembrar e refletir sobre a necessidade de uma educação da sensibilidade do educador para que seja capaz de educar com pleno respeito ao ser da criança. Naqueles anos do pós-guerra, a arte na educação, a educação através da arte ou simplesmente arte-educação, despontava como esse paradigma de respeito ao desenvolvimento saudável da criança, buscando reconstruir através da educação e da arte um mundo mais humanizado.

Estamos preparando para as próximas edições matérias sobre o movimento inspirados no lançamento recente de livro com depoimentos daqueles que fizeram parte desta história. Aguardem.

Karka Bohac, psicóloga formada pela Puc-Rio e mestranda em Ciências da Educação na Universidade do Porto relata sua passagem pela Escola da Ponte e como a prática da liberdade desde a educação infantil pode ser a base para a formação de cidadãos mais conscientes, criativos e participativos. Seu depoimento, nos lembra como a Escola pode ser uma Ponte entre o homem e sua plena humanização.

Cynthia Dorneles, escritora, cantora, cientista social e psicanalista nos lembra, parafraseando Rubem Alves, que as escolas podem ser gaiolas ou asas, podem aprisionar e sepultar talentos ou desenvolvê-los.

Boa leitura!

Ricardo Paes, Editor
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