Revista Êxito na Educação

Quando a greve da Educação vira caso de polícia

por Wíria Alcântara

Desde o dia oito de agosto que os profissionais de ensino das redes estadual e municipal do RJ se encontram em greve. Em pauta as antigas discussões que envolvem reajuste salarial, plano de carreira e melhoria nas condições de trabalho, assumem novas roupagens num cenário de contrarreformas e de reestruturação da natureza da escola pública, organizadas no Rio de Janeiro pelos governos do PMDB e seus secretários economistas, Risolia e Costin.

O projeto de submeter a educação pública aos interesses das classes dominantes não é novo, tampouco a tentativa de alijar as classes populares do domínio crítico dos saberes, como forma de mantê-las sob controle dos poderosos. Entretanto o que vivenciamos hoje é a tentativa de imposição dessa máxima da forma mais perversa possível, através da força desmedida e da violência.

Não é de hoje também que greves e manifestações de profissionais da educação são criminalizadas, e o avanço de interesses privados na área só intensifica esse processo. Vivemos um período onde a natureza dos currículos se encontra em disputa, não pelas diversas correntes do pensamento pedagógico, mas sim por Institutos e Fundações Privadas que enxergam na educação um importante nicho de lucros para a venda de seus pacotes “pedagógicos”: apostilas e projetos diversos.

Para que essa proposta se efetive no interior das escolas os professores precisam ser “disciplinados” no manejo dessas novas ferramentas de ensino, e é por isso que no coração dessa reforma estão os chamados professores “polivalentes”. O professor polivalente é aquele que irá ministrar diversas disciplinas, sem a formação específica para tal. Amparado apenas pelas apostilas, vídeos e demais aparatos concebidos fora do espaço escolar.

O rico exercício de planejar, debater, conceber o Projeto Político Pedagógico, as aulas, as avaliações, contraditoriamente vai deixando de ser tarefa daqueles profissionais que vivenciam cotidianamente os anseios, as frustrações e necessidades de estudantes e comunidades escolares.

Nesse sentido a tentativa de silenciar os profissionais da educação, e a sua luta em defesa da escola pública, compõe a face mais desumana de um estágio de dominação que não se satisfaz apenas com o apassivamento das massas, mas que visa também, e principalmente, saquear recursos públicos que deveriam estar sendo investidos na escola e na valorização de seus profissionais.
É contra esse modelo que nós profissionais da educação nos insurgimos, tomando as ruas desde o mês de agosto e reafirmando que nossa luta vai muito além da reivindicação salarial. Ao localizarmos a disputa político pedagógica no centro da luta ultrapassamos de forma consciente o estágio meramente econômico-corporativo para um estágio de embate ético-político com os governos do estado e do município.

E é exatamente aí que mora o perigo, ao tomarmos as ruas denunciando o projeto de educação e de sociedade que está por trás das políticas de desmonte da escola pública e de ataque à seus profissionais, ocupamos o terreno da disputa ideológica derrubando o tão conclamado mito do “Estado Democrático de Direito”.

Ao assumirmos o protagonismo da disputa pelos rumos das políticas públicas para educação e para a nossa carreira nos confrontamos diretamente com os interesses privatistas das corporações e empresários que dominam essa cidade e estado, e que têm garantido a eleição e reeleição de governos e da grande maioria dos parlamentares. Por isso não nos surpreende a truculência e a repressão que se abateu sobre nós, trabalhadores da educação e sobre a nossa entidade de classe, o SEPE*.

A violência desproporcional, o autoritarismo e a falta de democracia, direcionada contra trabalhadores da educação em plena luz do dia na Cinelândia infelizmente não é diferente daquela presente no cotidiano de favelas e áreas periféricas de nossa cidade e estado, e que ultraja nossos alunos. Talvez por isso também que a nossa luta tenha encontrado tanto apoio entre os pais e os próprios alunos das escolas públicas. A população não aguenta mais o descaso dos governos, a falta de ética, a corrupção generalizada. As mobilizações de junho pavimentaram o terreno para as nossas greves de agosto. O professor lutando também está ensinando!

Wíria Alcântara é Professora do Ensino Básico/Graduada em História e Mestre em Educação pela EPSJV – Fiocruz/Membro da Direção Colegiada do SEPE/RJ.
*SEPE-RJ - Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação do RJ (http://www.seperj.org.br/)