Revista Êxito na Educação

A culpa é da mulher


Cynthia Dornelles

A Marcha das Vadias - originalmente Slutwalk - é um polêmico movimento pós-feminista que surgiu a partir de 3 de abril de 2011 em Toronto, Canadá. Surgiu porque um policial encarregado do caso de estupro de várias estudantes da Universidade de Toronto afirmou que os abusos cometidos tinham como razão o fato de as jovens usarem roupas provocantes. Desde então estas marchas acontecem no mundo todo com as moças usando peças provocantes, minissaias ou até nudez parcial.

Um dos slogans da Marcha deste ano era simples: “Cadê o homem que engravidou, por que o crime é da mulher que abortou?” Segundo estimativas do Ministério da Saúde em 2010 havia um número que ia de 729 mil e 1,25 milhão de mulheres que se submetem ao aborto voluntário anualmente no Brasil. Destas, pelo menos 250 morriam. Certamente este número deve ter aumentado, afinal estamos em 2013: o ano em que o Papa veio ao Brasil e fez seu papel de Papa que é o de se declarar contra o aborto.

Num gráfico distribuído pela internet de uma organização que se intitula Orgulho de Ser Feminista, é relatado que 66% das mulheres que se submetem ao aborto são católicas, 64% são casadas, 81% têm filhos. Como uma pesquisa destas é realmente difícil de ser realizada, pois a mulher que faz um aborto dificilmente relata que o fez, primeiro por ser considerado crime e também por envolver um assunto ainda tabu (sexualidade e intimidade) escolho acreditar neste gráfico, mesmo sem saber como foi feita esta pesquisa, se há imparcialidade nela, exageros ou o quê. Acho simplesmente muito provável que seja isto mesmo, ou que seja quase isto.

Sendo assim podemos deduzir que as mulheres que fazem aborto colocam em risco sua liberdade antes de tudo (podendo ser presas), suas próprias vidas (os lugares onde hoje são
praticados os abortos muitas vezes não têm a menor condição de higiene para cirurgias deste calibre), suas reputações e, caso sejam católicas, preferem o inferno a um filho indesejado.

Quando uma mulher prefere arriscar sua vida, ir para a cadeia e para o inferno por toda a eternidade a ter um filho é porque definitivamente ela está disposta a tudo para não cumprir o que a natureza desejaria dela. A natureza, os Papas, os Bispos e todos os homens e mulheres que arbitram que ela não tem direito à escolha acabam sendo destronados por um ato da vontade da mulher de não ser uma mera reprodutora, o ato desesperado de um aborto ilegal provocado.

Para a natureza, impera a espécie que sempre vale mais que o indivíduo. Mas a natureza está solenemente ignorante do fato de que a espécie humana atingiu em 2011 o quadro de sete bilhões de indivíduos e que cada vez mais caminhamos para o colapso da civilização, porque há gente demais e recursos de menos. Para a natureza, estas estimativas não valem nada. Até porque acabar uma espécie ou outra sempre foi um fato natural. Quando houver seres humanos demais, a natureza providenciará sua extinção, como já fez antes com outras espécies. A natureza não pensa, a natureza é como ela é. Os Papas e os Bispos, sempre ligando Deus à natureza desejam que acreditemos que Deus é bom, sábio e que a natureza é como Ele, porque foi criada à Sua imagem e semelhança, como tudo o mais. Nestas versões religiosas da natureza, ela nunca será cruel e cheia de deformidades, como a que qualquer observador mais acurado perceberá. Por outro lado, os chefes de Estado, em suas oportunas alianças políticas com os setores religiosos da sociedade, fazem questão de desconhecer a catástrofe anunciada na qual o mundo vem se tornando dia a dia justamente por excesso populacional.

A mulher não ter direito a escolhas é uma realidade bastante antiga. Uma realidade que remonta à Itália romana, um século antes de Cristo. Em Roma, a mulher era considerada como uma eterna criança e sua importância era para gerar uma descendência legítima. Demóstenes dizia: “as cortesãs, nós as temos para o prazer; as concubinas, para os cuidados de todo o dia; as esposas, para ter uma descendência legítima e uma fiel guardiã do lar”. O casamento não constituía a única forma de união aceita; o casamento formava sim uma união privilegiada, a única que poderia resultar numa coabitação matrimonial e uma descendência legítima, daí sua importância.

A mulher antes do século XVIII não existia como sujeito. Os homens escreviam em seu nome e só a partir de então as mulheres foram consideradas como existentes. Até o século XVIII só existiam os homens e as mulheres não eram levadas em consideração. No livro A Arte de Enganar a Natureza, Fabíola Rohden constata o fato de que o infanticídio só passa a ser considerado crime e a mulher só passa a ser alvo de atenção para a medicina e para o foro a partir das guerras, onde se constata que o número de soldados pode ser importante para vencer uma guerra.

“Constata-se, assim, que a sociedade não está interessada a princípio na mulher, mas naquilo em que ela pode ser produtiva ou prejudicial. O que está em jogo é a produção de novos indivíduos para a coletividade. E a mulher que chegou ao estado de gravidez tem de necessariamente apresentar algum resultado, ou seja, o filho, mesmo que seja morto. A gravidez está longe de ser vista como um evento do plano pessoal ou privado. Ela é um acontecimento social, na medida em que deve ser de domínio público, mas também no sentido que produz bens para a sociedade.” É a partir de 1852 que começam a surgir leis e discursos médicos e forenses sobre a mulher e o parto. A principal função da mulher é reproduzir, dar filhos à sociedade e a maternidade é tida como algo natural, indiscutível.

Dado que o ser humano é fruto da cultura - uma vez que praticamente nele não existe o que chamamos “instintos” - e que na verdade as leis que faziam sentido em 1800 não fazem mais sentido hoje, pensamos que seria mais do que justo termos nossas leis revistas. É fundamental a educação sexual nas escolas, para que meninos e meninas saibam os riscos que correm, desde as doenças sexualmente transmissíveis até a gravidez indesejada. É básico que os contraceptivos sejam distribuídos gratuitamente, e que o aborto legal seja institucionalizado para que não morram mais tantas mulheres, porque o corpo da mulher pertence a ela, porque ela é quem deve decidir que regras quer cumprir e quais não. Porque criar um filho hoje não é nada fácil. Hoje, mais do que nunca, a mulher deve ser sujeito de sua história.

Bibliografia consultada:
ARIÈS, Philippe e Georges Duby. História da Vida Privada I. São Paulo: Companhia de Bolso, 2009.

 

 Cynthia Dornelles é graduada em Ciências Sociais (UFRJ) e Psicologia (USU), pós-graduada em psicanálise pelo CEPCOP/USU, shiatsuterapeuta e autora de Amante Ideal (2000), Os 1001 E-mails - Sherazade Conta Histórias Eróticas a um Marujo Solitário (2003) e da antologia +30 Mulheres que Estão Fazendo a Nova Literatura Brasileira. Gravou 3 CDs independentes como cantora e compositora: Minha Aldeia (1995), Cynthia Movimentos (2000) e Onde a Música Não Pára (2002). Blog: lucidolimpidoproparoxitono.blogspot.com/