Revista Êxito na Educação

Pátria Amada, Brasil

Não é o enredo de uma ópera, mas os protestos populares que se espalharam pelo país ganharam composição dramática, atores, vozes e sinfonia. Em certos momentos as pautas deram espaço ao embate entre a Polícia Militar e os manifestantes que usaram de violência. Mesmo que os atos destes sejam repudiados, orquestrados até, e não representem o pensamento da maioria que clama por avanços nas condições sociais, também afirmam-se manifestantes.

#ogiganteacordou

O povo acordou! E saiu às ruas com cartazes bem humorados, caras pintadas ou até mesmo de terno e gravata pós-expediente. E não era para lotar os estádios onde ocorreram as partidas da Copa das Confederações. Milhares de homens e mulheres, de diferentes faixas etárias e classes sociais, reivindicaram lado a lado, inicialmente, contra o reajuste nas tarifas do transporte público. Contudo, a mobilização foi ganhando força e visibilidade e não ficou apenas nos 20 centavos.

O pronunciamento da presidente Dilma Rousseff na noite do dia 21 de junho pode não ter agradado a todos, mas foi vitória para os manifestantes (1). Em seu discurso, condenou a violência do que se referiu como “uma pequena minoria” e elogiou as pautas levantadas pelo país. E falou em um grande pacto a ser discutido com governadores e prefeitos, no qual o foco inicial seria a elaboração do Plano Nacional de Mobilidade Urbana, que privilegie o transporte coletivo. A destinação de 100% do petróleo para a educação também foi outro ponto de grande interesse público. Além disso, na pauta também estava a volta, de imediato, dos milhares de médicos do exterior para ampliar o atendimento do SUS.

As redes sociais foram fundamentais neste processo de organização dos protestos. Pela web, as ações repercutiram por todo o Brasil. A adesão à causa não ficou apenas no mundo virtual, impulsionando o crescimento das manifestações. A criação de eventos na rede ajudou a elaborar a agenda e o percurso dos atos através de votação dos membros. Atores comuns da sociedade, como estudantes e não vinculados a partidos políticos, tornaram-se líderes anônimos da causa. Uma das críticas por parte dos manifestantes é contra a ligação de partidos durante os atos – fato que, em muitos momentos, resultou em atritos.

Outro destaque foi a cobertura da mídia tradicional (TV, jornais, sites), que em um primeiro momento abordou os atos com um discurso crítico e generalizado, chamando os participantes de “vândalos”. Mas após receber dura crítica da sociedade, mudou o foco e deu ênfase às pautas que estavam sendo abordadas. Neste cenário, a mídia Ninja, com uma narrativa independente (2), e sua web tv, que funciona em parceria com colaboradores, atingiram altos índices de audiência pela cobertura dos eventos.

Um bom exemplo no Rio de Janeiro foi a cobertura (em 13 de julho) do protesto organizado em frente à igreja do Carmo, no Centro, no dia do casamento da neta do maior empresário do setor de transporte da capital fluminense, Jacob Barata, ou o “Rei do ônibus”, como é conhecido.

As ações da Polícia Militar também são destaque neste cenário de protestos, mas negativamente. A violência por parte dos policiais tem sido questionada pela sociedade e fomenta a discussão sobre a desmilitarização da PM. Em um dos últimos confrontos, em frente ao Palácio Guanabara, mais uma vez foram usadas armas não letais, como balas de borracha e bombas de gás lacrimogênio. O questionamento da sociedade refere-se à truculência policial com os manifestantes – o que não se dá da mesma forma com o vândalos, e que chama a atenção para uma ação orquestrada com o intuito de desmoralizar a causa dos protestos. (3)

O Deputado Estadual Marcelo Freixo (PSOL) usa as redes sociais para se posicionar diante das ações de confronto entre a PM e os chamados “vândalos”: “não admitimos essas cenas de violência do Estado contra a população” – escreve Freixo – “Nosso mandato está na luta por uma sociedade democrática, em que o direito de manifestação seja respeitado. Nada justifica a violência do Estado. A Comissão de Direitos Humanos e toda nossa equipe de assessores estão nas ruas acompanhando e atendendo as vítimas desta truculência”.

Sobre as ações que acontecem geralmente ao fim dos protestos, inicialmente pacíficos, o governador Sérgio Cabral acusa a presença de grupos internacionais articulados para influenciar os atos de violência. E anunciou a criação de uma comissão para investigar os atos de vandalismo. (4)

As opiniões ainda divergem, mas esta grande orquestra sinfônica que é o Brasil está apenas começando seu espetáculo. É preciso apenas alinhar o instrumento musical ao canto. Convém repensar as prioridades e focar nos objetivos para não se dispersar das causas que mobilizaram um mar de gente pelas ruas deste país.

 Fontes: 

[1] ow.ly/n9WmT

[2] ow.ly/n9WKS

[3] ow.ly/n9WMv

[4] ow.ly/n9WRw

 Gabriela Anastácia - formanda em Jornalismo pela Unisuam.