Revista Êxito na Educação

Da hora

por Cynthia Dornelles

Na contramão de tudo o que hoje se reivindica no país, uma matéria do Globo do dia 26 de maio de 2013 preconiza, como solução para haver menos menores infratores, a diminuição da maioridade penal.

As razões que o jornal aponta são as mudanças na estrutura do tráfico de entorpecentes pós-pacificação. Antes os menores eram olheiros e aviões do tráfico nos morros, agora descem ao asfalto para vender drogas após a implantação das UPPs.

Nas manifestações, apesar de palavras de ordem vagas, o mal-estar é claro. O que o provoca é perceber que, nos chamados governos democráticos do mundo, o que realmente nos governa a todos são as grandes corporações neoliberais. Vivemos hoje, de forma clara, a ditadura do capital de que Marx falava no começo do século XX. Em diversos governos do mundo, onde se deu o mesmo fenômeno das manifestações que ocorreu aqui, houve clara truculência por parte da polícia contra os que se manifestavam de forma crítica contra o governo.

Diminuir a maioridade penal não tornará estes adolescentes e crianças menos revoltados, menos confusos, com melhores projetos de vida ou com famílias que lhes deem suporte e escolas que lhes tragam melhores perspectivas através de educação e treinamento adequados para o trabalho especializado. Pelo contrário, diminuir a maioridade penal só tornará as prisões mais cheias, mas agora com a “carne nova” destes jovens infratores.

Um dos bandidos mais intelectualmente capazes, o Markola, um dia falou: “se matarem cem de nós, virão mil. A gente é como rato: cai um, vêm outros”. Os pobres e marginalizados do mundo aumentam, triplicam, quadruplicam, centuplicam, porque se centuplicam também os lucros das grandes empresas, totalmente despreocupadas em resolver questões sociais em países que muitas vezes nem são os seus de origem.
Prender marginais é uma luta com os galhos, como também é ao punir governos e governantes corruptos, em que a queda de um, significa apenas a entrada dos próximos.

Tanto os governantes corruptos quanto os marginais (os marginais oficiais, os pobres) têm uma origem comum: a forma como hoje a sociedade se organiza para defender o interesse das grandes corporações, que por sua vez só se interessam com o movimento fluido e amoral do capital e do poder.

Tornar os governos mais democráticos é tornar o movimento de capitais mais transparente, trata-se de haver interações cidadãs entre os governos, as empresas e o povo. Trata-se de melhorar as leis que aí já estão, de exigirmos o cumprimento das mesmas em prazos menores e com maior rigor. Tornar os governos verdadeiramente democráticos é dar educação ao povo, não adestramento ou simples disciplina para tornar o corpo dócil.
Se cada criança ou jovem do mundo tiver a certeza de que nem eles nem suas famílias serão postos à margem, com certeza haverá menos razões para o crime.

A semente do crime é o caos. No caos, qualquer um, honesto ou desonesto, acaba por agir mais por instinto de sobrevivência do que com lucidez. Nosso mundo hoje é caótico. A educação é cada vez mais desvalorizada e o lugar da cultura fica cada vez mais difuso numa sociedade sem identidade. Tornar a maioridade penal mais baixa não resolve problema algum, só agrava.


Retrato de Cynthia Dorneles por Roque LabancaCynthia Dornelles é graduada em Ciências Sociais (UFRJ) e Psicologia (USU), pós-graduada em psicanálise pelo CEPCOP/USU, shiatsuterapeuta e autora de Amante Ideal (2000), Os 1001 E-mails - Sherazade Conta Histórias Eróticas a um Marujo Solitário (2003) e da antologia +30 Mulheres que Estão Fazendo a Nova Literatura Brasileira. Gravou 3 CDs independentes como cantora e compositora: Minha Aldeia (1995), Cynthia Movimentos (2000) e Onde a Música Não Pára (2002). Blog: lucidolimpidoproparo