Revista Êxito na Educação

Ano I - Número 3

Capa da 3a edição da Revista Êxito na Educação (jul/ago-2013)EDITORIAL

(Foto da Capa:betto rodrigues / Shutterstock.com)


Em relação às manifestações a que todos assistimos recentemente, noticiadas mundo afora e que suscitam tantas análises e interpretações, parece haver um consenso: elas farão parte da história deste país. Há quem as compare com a Primavera Árabe, com as manifestações na Síria e na Turquia, há quem enxergue motivações oriundas dos subterrâneos mais escuros de nossa história recente, há quem defenda teorias conspiratórias, identifique mercenários pagos entre os "vândalos" e motivações político-partidárias em meio a um movimento de profusa indignação e que ultrapassa a pauta inicial das reivindicações do Passe Livre. O certo é que nenhuma das possibilidades acima pode ser de todo descartada.

Pátria Amada, Brasil

Não é o enredo de uma ópera, mas os protestos populares que se espalharam pelo país ganharam composição dramática, atores, vozes e sinfonia. Em certos momentos as pautas deram espaço ao embate entre a Polícia Militar e os manifestantes que usaram de violência. Mesmo que os atos destes sejam repudiados, orquestrados até, e não representem o pensamento da maioria que clama por avanços nas condições sociais, também afirmam-se manifestantes.

#ogiganteacordou

O povo acordou! E saiu às ruas com cartazes bem humorados, caras pintadas ou até mesmo de terno e gravata pós-expediente. E não era para lotar os estádios onde ocorreram as partidas da Copa das Confederações. Milhares de homens e mulheres, de diferentes faixas etárias e classes sociais, reivindicaram lado a lado, inicialmente, contra o reajuste nas tarifas do transporte público. Contudo, a mobilização foi ganhando força e visibilidade e não ficou apenas nos 20 centavos.

O pronunciamento da presidente Dilma Rousseff na noite do dia 21 de junho pode não ter agradado a todos, mas foi vitória para os manifestantes (1). Em seu discurso, condenou a violência do que se referiu como “uma pequena minoria” e elogiou as pautas levantadas pelo país. E falou em um grande pacto a ser discutido com governadores e prefeitos, no qual o foco inicial seria a elaboração do Plano Nacional de Mobilidade Urbana, que privilegie o transporte coletivo. A destinação de 100% do petróleo para a educação também foi outro ponto de grande interesse público. Além disso, na pauta também estava a volta, de imediato, dos milhares de médicos do exterior para ampliar o atendimento do SUS.

Da hora

por Cynthia Dornelles

Na contramão de tudo o que hoje se reivindica no país, uma matéria do Globo do dia 26 de maio de 2013 preconiza, como solução para haver menos menores infratores, a diminuição da maioridade penal.

As razões que o jornal aponta são as mudanças na estrutura do tráfico de entorpecentes pós-pacificação. Antes os menores eram olheiros e aviões do tráfico nos morros, agora descem ao asfalto para vender drogas após a implantação das UPPs.

Nas manifestações, apesar de palavras de ordem vagas, o mal-estar é claro. O que o provoca é perceber que, nos chamados governos democráticos do mundo, o que realmente nos governa a todos são as grandes corporações neoliberais. Vivemos hoje, de forma clara, a ditadura do capital de que Marx falava no começo do século XX. Em diversos governos do mundo, onde se deu o mesmo fenômeno das manifestações que ocorreu aqui, houve clara truculência por parte da polícia contra os que se manifestavam de forma crítica contra o governo.

Brasil-Vórtex: manifestações e mudanças

por Nelson Job

Tonight the streets are ours
These lights in our eyes, they tell no lies
Those people, they got nothing in their souls
And they make our tvs blind us from our visions and our goals
Richard Hawley(*) in "Tonight the streets are ours"

O Brasil está passando por uma transformação sem precedentes na História. Os intelectuais tentam adequar o fenômeno às suas teorias velhas sem dar conta do que está acontecendo. Este texto é um exercício de aprender conceitualmente com o acontecimento atual e produzir novos conceitos bem como uma ontologia que lhe seja própria.

As manifestações do Movimento Passe Livre ganharam adeptos, ressoando com as insatisfações de vários estudantes no Brasil, produzindo ressonância e gerando com isso um movimento muito mais amplo. Vários vetores foram acrescentados: o grupo Anonymous, pessoas sem partido com uma insatisfação geral com o país, vários segmentos da classe média, alguns partidos etc. A catalisação se multiplicou, sobretudo através das redes sociais, o que gerou uma imensa massa de manifestantes nas ruas, com as mais variadas agendas. Destacam-se a alegria, a leveza do movimento, o apartidarismo, apenas mudando de tom com alguns manifestantes mais agressivos, recebendo a alcunha midiática de "vândalos", sobrepondo irresponsavelmente os manifestantes mais agressivos, os oportunistas e os "infiltrados". Muitos vão para as passeatas com o intuito de participar de algo que possui popularidade entre os seus, mas saem dali mais informados, politizados. O movimento não é exatamente racionalizado, mas possui uma intuição coletiva de que é necessário mudar. Pouco se divulga que as cidades do interior também realizaram suas passeatas, fazendo com que o número de manifestantes tenda a ser muito maior do que é divulgado na mídia - que chamarei de "tradicional": TV, jornais e rádio - que tem dividido espantosamente o número de manifestantes nas ruas para 5 vezes menos (em geral) em suas matérias, minimizando o movimento. A princípio contra, depois colocando alguns aspectos positivos, finalmente a mídia tradicional vem agora alardeando o movimento como um momento histórico que mudou o país para sempre.