Revista Êxito na Educação

Reforço escolar pra quem? Alunos ou Escola?

A resposta parece óbvia – a maioria talvez responda que reforço escolar destina-se aos alunos. Outros talvez reflitam que se os alunos precisam de reforço, talvez o problema esteja na escola. A conclusão a que chegamos é que existe uma crescente oferta de aulas de reforço, estudo dirigido, acompanhamento escolar e cursos preparatórios que talvez expressem os problemas por que a escola como um todo vem passando: turmas com cada vez mais alunos, professores despreparados e mal remunerados, um currículo e um sistema de avaliação herdados do século dezenove e que muito pouco têm a ver com as exigências do século vinte e um. Em meio a este quadro desalentador despontam inúmeras alternativas, uma multiplicidade de saídas. Não se pode mais pensar em um sistema único, menos ainda para um país continental como o nosso, com tamanha desigualdade social e diversidade cultural.

Delymar Cardoso, professora com vinte e cinco anos de experiência em educação infantil e dedicada nos últimos dez ao preparatório que criou inicialmente para o Colégio Pedro II no Rio, reflete sobre as transformações por que vem passando o ensino e como se agravaram os problemas que fizeram aumentar a oferta deste tipo de serviço: o reforço escolar.

Ano após ano, Delymar viu seus alunos se multiplicarem e percebeu que além das aulas preparatórias, o que os alunos precisavam era de “reforço escolar” para conseguirem passar nas provas de suas próprias escolas. Então começou a se perguntar onde estava a origem do problema: os alunos estão mais desmotivados, com menos limites e desencantados com os estudos ou é a escola de um modo geral que está menos atraente e menos eficaz para atrair a atenção de alunos cada vez mais mergulhados em dispositivos tecnológicos com os quais ainda é difícil a escola competir?

Depois de uma década, ela pensa que são todos esses fatores e uma porção de outros. “A crescente mercadorização do ensino é talvez o principal destes fatores”, explica ela, “pois fez com que as escolas aumentassem o número de alunos por sala de aula, sem aumentar a qualidade do ensino ou as condições de trabalho do educador”.

Delymar acredita que é impossível para um colégio – mesmo entre os mais tradicionais e caros do bairro – oferecer um atendimento personalizado ao aluno, quando a realidade é de quarenta alunos por sala de aula e apenas uma professora e uma assistente para dar conta de todas as dificuldades que os alunos tenham em relação às matérias.

Legenda: Aula Passeio na Casa de Rui Barbosa (2003)
Foto: Divulgação

No início as turmas eram pequenas e as aulas eram ministradas em sua casa ou em aulas-passeio revesadas em dois espaços culturais de Botafogo: o Museu do Índio e a Casa de Rui Barbosa. Todo o conteúdo era ministrado no primeiro semestre e os simulados (aplicação das provas anteriores do Pedro II) eram oferecidos em um espaço que alugava no mesmo bairro. “Foram anos mágicos” - explica a professora - “os alunos amavam aquelas aulas divertidas, com intervalo para o piquenique, a lousa portátil e bem pequena que ia passando de mão em mão... os alunos não sentiam o tempo passar e a aula rendia, todos produziam muito”.

Ano após ano, o preparatório dedicou-se ao trabalho 100% individualizado e em turmas pequenas, onde o ritmo e dificuldades de cada aluno é observada e buscada uma solução, uma saída. “Sem este nível de atenção, que hoje é produto escasso no mercado, não tem como o aluno receber o que precisa e estar apto a fazer certas provas, cumprir satisfatoriamente certas etapas”, conclui.


Legenda: Aula Passeio na Casa de Rui Barbosa (2008)
Foto: Divulgação

Mesmo com os alunos do Ensino Médio esta personalização é indispensável. O fato de estarem tão preocupados com os concursos de ingresso para o Nono Ano ou mesmo para o ENEM, acaba sendo enfatizado o adestramento repetitivo e por memorização, sem o ensino que contextualiza, que constrói pontes entre as disciplinas, que dá sentido àquilo que se aprende e ensina.


Legenda: Aula Passeio no Parque Lage (2005) 
Foto: Divulgação 

“As próprias escolas oferecem turmas de reforço” - diz Delymar - “e isto é um sinal de que elas mesmas estão se dando conta das lacunas que deixam na formação de seus alunos”. Claro que podemos refletir sobre um sistema de ensino obsoleto, com raízes no século dezenove e pouco afinado com as demandas desta realidade da hiperconectividade, da computação em nuvem, das redes sociais como mídia principal de comunicação, a proliferação de dispositivos e aplicativos móveis que poderiam ser utilizados e otimizados pela escola, tornando o processo de aprendizagem pouco penoso, mais divertido, mais humanizado – nos termos do que se considera mais humano e “amigável” hoje em dia.


Legenda: Aula Passeio no Parque Lage (2005) - Hora do Lanche
Foto: Divulgação

 

 

 

Mas não basta aproveitar toda a tecnologia em sala de aula, se o aluno continuar sem a atenção e foco do professor sobre ele e suas necessidades. Levar os alunos a um passeio, propor que se apresentem, mostrar que todos podem falar e devem aprender a ouvir, pode ser um jeito simples de conquistar a atenção dos alunos. Pode parecer chavão, mas é preciso um bocado de amor para fazer com que o aluno passe a amar a fazer aquilo que precisa: estudar” (Delymar Cardoso

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