Revista Êxito na Educação

As novas armas dos índios

Tecnologias são as novas "armas" para a educação de jovens indígenas no sul da Bahia

Na OCA Digital, indígenas se apropriam das tecnologias em benefício próprio

Ao longo do ano de 2012, 62 estudantes Tupinambá, além de convidados de outras etnias indígenas, vivenciaram atividades de arte-tecnologia dentro do projeto OCA Digital, em Olivença (Sul da Bahia). A prática, focada na apropriação das Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) para utilização em benefício de suas comunidades, vem dando um salto qualitativo no processo educacional e de autorreconhecimento dos jovens indígenas. O projeto OCA Digital é realizado pela Thydêwá e Cardim Projetos e Soluções Integradas, com o Patrocínio da Telefonica e Vivo; conta com o apoio financeiro do Fundo de Cultura da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia; e apoio da Cambuí Produções, do Pontão Esperança da Terra, e do Programa Cultura Viva/Ministério da Cultura.

O projeto foi iniciado em fevereiro, com uma apresentação introdutória do mundo virtual para os indígenas professores da Escola Estadual Indígena Tupinambá de Olivença (EEITO). “O projeto teve como base o REA – Recursos Educacionais Abertos, o qual disponibiliza conteúdos e produtos na internet, pois trabalharemos com as diferentes licenças da Creative Commons. Acreditamos que a Cultura tem muito a contribuir com a Educação, pois faremos valer a Lei 11.645, que obriga, desde 2008, ao ensino da História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena em escolas do Ensino Fundamental e Médio”, explica uma das coordenadoras do Projeto OCA DIGITAL, Márcia Cardim.


A EEITO recebeu um telecentro, mas até pouco tempo, os professores e alunos não sabiam como usá-lo. Hoje, os frequentadores da OCA apropriaram-se do espaço e até ensinam a seus professores como as TICS podem ser valiosas. Para Cleusa Pinto, diretora da escola, "o projeto que vem sendo aplicado no ambiente escolar é uma inovação, no sentido de serem os próprios índios trabalhando e mostrando a cultura e o conhecimento que produziram e estão produzindo na escola".

De abril a outubro, os jovens indígenas participaram de atividades realizadas por arte-educadores convidados, como a fotógrafa portuguesa Ângela Ferreira, a consultora de Arte Digital Drica Veloso, o poeta Binho, o ativista Felipe Fonseca, o cineasta Wallace Nogueira, entre outros.

“A OCA DIGITAL é um laboratório de experimentações, onde se aprende brincando, mas brincando de fazer coisa seria, de buscar benefíciospara a comunidade Tupinambá, que há mais de 500 anos é massacrada” aponta outro dos coordenadores do projeto, Sebastián Gerlic.

Na OCA, os jovens encontraram um lugar para fazer as pesquisas escolares que antes não exista, mas eles foram muito além disso. Eles produzem conteúdos e levam para dentro da escola e espalham pelo ciberespaço. Eles demostram na escola, que os temas podem ser debatidos, e assim como aprenderam na Oficinas de vídeo, na própria sala apresentam vários pontos de vista e diferentes formas de narrar a história. Eles sabem que o Brasil conta uma histórica única para os alunos, uma onde eles como Tupinambá são coisa do passado e não tem valor; através das TICS eles estão virando essa pagina e escrevendo outro rumo, exemplo disso são: OcaDigital.Art.Br; IndioEduca.Org ; IndiosOnline.Net

“Para nós as ferramentas, as técnicas, as linguagens são meios para que a própria comunidade indígena conheça seus direitos, conheça o mundo globalizado, reflita e escolha critica e conscientemente qual é seu Plano de Vida e quais são os caminhos que tem que percorrer nesse sentido. Na OCA DIGITAL o clima é de comunidade, de coletivo, de inteligência coletiva, de organismo vivo, não há horários estritos, não há obrigações padronizadas, não há ditadura dos ´mais estudados´; há sim um círculo onde todos tem vez e tecem juntos”, acrescenta Gerlic.

Nas palavras de Jeanderson Tupinambá, 15 anos, um dos participantes do projeto, “a OCA DIGITAL é um lugar relacionado ao aprendizado e ao ensino da luta Tupinambá aos jovens que estão se iniciando no movimento. Nós aprendemos a lidar com o mundo e também passar parao mundo quem somos e como nós agimos. Nós lutamos por um mundo melhor com dignidade, porque o que mais queremos é ser livre”.

Em dezembro, nove pessoas envolvidas na OCA DIGITAL, sendo 7 delas Tupinambá estão fazendo um documentário social participativo com o objetivo de divulgar para o mundo qual é a realidade Tupinambá hoje, e como as TICS estão envolvidas no processo do povo.

HISTÓRICO

A OCA Digital funciona como uma Célula de Inteligência Coletiva, onde converge e dialoga a diversidade cultural”, explica Gerlic. A ONG Thydêwá vem trabalhando com esse conceito desde 2005 quando formalizou seu convênio como Ponto de Cultura Viva: “Índios On-Line”. O convênio permitiu a sustentação de 7 células, cada uma em uma comunidade indígena diferente, com gestão, ação e autonomia própria. A premissa era direcionar as atividades, não pelas necessidades dos participantes, mas sim pelo ORGANISMO, pela comunidade indígena.

A Thydêwá já realizou diversos projetos aliando a arte à tecnologia para o fortalecimento das comunidades indígenas. O resultado dos projetos está disponível na internet como a Rede Indígena de Solidária de Artesanato (www.risada.org), o portal Índios On Line (www.indiosonline.net), Índio Educa (www.indioeduca.org), e no canal de vídeo da Oca Digital (http://www.youtube.com/user/ocadigital ). Todo o material está disponível para divulgação e remix por meio da licença Creative Commons.

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