Revista Êxito na Educação

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Envelhecer “em cima do salto”

por Alzira Costa

O organismo humano, desde sua concepção até a morte, passa por diversas fases: desenvolvimento, puberdade, maturidade e envelhecimento. O envelhecimento manifesta-se por declínio das funções dos diversos órgãos que, caracteristicamente, tende a ser linear em função do tempo, não se conseguindo definir um ponto exato de transição, como nas demais fases.

Na atualidade, a sociedade encontra-se diante de uma situação contraditória. De um lado defronta-se com o crescimento massivo da população de idosos, fruto do aumento da expectativa média de vida da raça humana, e de outro lado omite-se ou adota atitudes preconceituosas em relação ao velho e à velhice, retardando a implementação de medidas que poderiam minorar o pesado fardo dos que ingressaram na terceira idade.

Vale lembrar que não podemos cometer o equívoco de considerar todas as pessoas como iguais porque estão na mesma faixa etária. A saber, a idade cronológica nem sempre é compatível com as demais que são: a idade emocional, cognitiva e social. A vida não se resume apenas a marcadores biológicos, o indivíduo possui, além do organismo, várias dimensões que interagem e influenciam o tempo todo no processo de envelhecer.

Nesse ponto nos deparamos com as questões psicoemocionais que norteiam nossas vidas e todas as etapas do desenvolvimento e em especial no envelhecer. Na convivência diária o idoso se vê envolvido com sua história e pode assim atribuir novos significados a fatos antigos e os tons mais maduros de sua afetividade passam a colorir a existência com novos matizes. Esses novos significados podem ser coloridos de modo alegre ou triste, de forma culposa ou meritosa, com uma carga emocional frustrante ou gratificante, ou ainda satisfatória ou sofrível. Por tudo isso pode-se dizer que a dinâmica psíquica do idoso é exuberante, rica e complicada.

Sigmund Freud, o ‘pai da Psicanálise’ afirmava que o sujeito tem na sua bagagem psíquica fatores que ele traz consigo para a vida e outros tantos que a vida lhe traz. Isso fica mais delicado no envelhecer, pois de um lado os fatores que a pessoa carrega na sua estrutura pesam tanto quanto os que o destino lhe reserva. Cabendo assim ao idoso um delicado equilíbrio psíquico que depende basicamente da sua capacidade de adaptação a sua existência presente bem como a vida pregressa juntamente com as condições que o meio social lhe oferta.

Esse contraponto proposto por Freud pontua para o sujeito um caminho que sempre existiu. Quando jovem ou ainda na idade adulta se já sentia tais pontos de modo desfavorável, quando toda a sua fisiologia e condições de vida eram atraentes e favoráveis, imaginem como fica esse mesmo individuo no momento que o decréscimo orgânico e social se impõem e exigem assim do sujeito no envelhecer uma adaptação que ele não conseguiu ter em idades pregressas. Por isso ouvimos muitas vezes que se envelhece como se viveu.

Em face desse contexto, os profissionais de saúde voltados para a gerontologia, buscam compreender os fatores de risco e vulnerabilidade que os idosos enfrentam no dia a dia. É ai que nos aproximamos do conceito de resiliência, não só para auxiliar no processo de compreensão de situações traumáticas vividas no dia-a-dia, bem como no estudo da etapa de vida que é o envelhecer, momento esse que apresenta um rol de procedimentos adaptativos diante das adversidades e acontecimentos potencialmente ameaçadores.

A resiliência pode ser definida como a capacidade, de pessoas ou grupos, de enfrentar as adversidades da vida com êxito, e até sair fortalecido delas. No campo da psicologia, refere-se às respostas que damos no dia-a-dia aos embates da vida, nas dificuldades, desafios e na adversidade, diante de algum trauma, na presença de uma grande perda, frente a ameaças ou riscos.

Podemos dizer que resiliência é o que chamamos de nossa força interna, nossas possibilidades de resistir aos percalços do curso de vida. Ela funciona como um amortecedor, um para choque de borracha que nos auxilia a diminuir o impacto dos atritos e das sequelas deixadas pelos pesados eventos da vida nos nossos ‘costados’.

Resiliência é um conceito oriundo da física, utilizado primeiro na engenharia que o utiliza para ‘indicar uma característica de materiais que conseguem retornar a sua forma anterior após serem alvo de pressão, como por exemplo, a mola e o elástico’.

Frederic Flach, ao cunhar o termo em 1966 e transferindo-o também para o âmbito das ciências humanas, dando-lhe uma faceta que abrange especialmente os momentos que o ser se vê diante de situações que podem gerar uma desintegração psíquico-emocional. Tal desintegração leva a pessoa a descobrir novas formas de lidar com a vida e a partir dessa experiência a se reorganizar de maneira eficaz.

O conceito de resiliência vai sofrendo mudanças à medida que novos pesquisadores vão se debruçando sobre esse tema. Temos assim um olhar para a resiliência como um processo interativo e não um atributo com o qual nascemos, ou que adquirimos durante nosso desenvolvimento. Esse processo enfatiza a interatividade com a vida e com as reservas que cada um traz consigo, que vão sendo mudadas a partir da capacidade adaptativa e da plasticidade dos recursos latentes que os indivíduos trazem e que lançam mão ao se defrontarem com situações limite.

Os idosos que se aposentam precisam estar preparados para enfrentar a ruptura com o mundo do trabalho e lidar com a falta desse lugar que dá significado a sua vida. Os mais resilientes encontram um modo de se aposentar sem jamais parar de se ocupar o que inviabiliza uma exclusão social por completo .

O ancião pode, perfeitamente, ter uma vida cheia de significado sem que, para isso, tenha que voar de asa delta, ou espatifar-se com a moto, ou fraturar a coluna no surf. Há um sem número de ocupações plenas de significado e dignidade melhor desenvolvidas por pessoas mais velhas. Ou seja, o idoso de bem com a vida precisa ser um sujeito adaptável diante de sua etapa de vida para dar conta de um envelhecer saudável.

Basta à sociedade curar-se desta embriaguez que cultua a juventude e reconhecer o valor laborativo e ocupacional dos idosos.

Em qualquer idade, necessitamos dos dois elementos cruciais que auxiliam na resiliência: ela não é inata e nem adquirida naturalmente. Ela depende das qualidades elaboradas no processo interativo do sujeito junto aos demais no meio social. Ou seja, para sermos resilientes necessitamos de ter alguém ao nosso lado, familiares ou amigos, que nos aceite e nos entendam de modo incondicional. O que nos ajuda a entender que o individuo dotado de resiliência é um produto do processo de interação que ele estabelece com o meio e com as pessoas que os cercam.

É na resiliência que as pessoas retiram coragem e a força que necessitam para a superação e suplantação de dores e dissabores. Todavia a resiliência não pode ser confundida com invulnerabilidade e invencibilidade diante de problemas e questões. Uma pessoa resiliente não é um ser invulnerável, pois talvez em outra circunstância algo possa se abater diante do sujeito e causar forte impacto.

Etimologicamente a palavra resilie é oriunda do latim e significa voltar a entrar saltando ou pular para cima. Outra forma corriqueira de entender a resiliência bem próxima dessa fornecida pela etimologia seria usando o olhar poético do compositor popular brasileiro Paulo Vanzolini, com a música que compôs em 1962. Vanzolini nos dá a seguinte mensagem no seu samba ‘Volta por cima’: ‘reconhece a queda e não desanima, levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima’.

É com esse refrão de Vanzolini, um biólogo compositor, que finalizamos esse artigo voltado para um trabalho com idosos, que tem como objetivo possibilitar que se construa um envelhecer mais criativo e fortalecido, auxiliando-o a ampliar o rol de atividades no dia a dia e, com certeza conseguir espanar a poeira do tempo que vai pousando nas vidas bem vividas e conseguir assim viver uma velhice em cima do salto.

Referências
FLACH F. Resiliência: a arte de ser flexível. Traduzido por Wladir D. São Paulo: Saraiva. 1991.
FREUD, S. Obras completas. Vol . VIII e XXI, Rio de Janeiro: Ed. Imago, 1980.
GROTBERG, E.H. Introdução: Novas tendências em resiliência. In MELILO A., Nestor E., Ojeda S. Resiliência: descobrindo as próprias fortalezas. Porto Alegre: Pioneira Editora. 2005.
VANZOLINI, Paulo, Disponível em:http://ow.ly/sJtn0. Acesso em 23.10.2010.

Alzira Costa é graduada em Psicologia (UGF) com mestrado em Teoria Psicanálitica (UFRJ) e pós-graduada em Gerontologia e Otimização Cognitiva, ambos pela UERJ. Psicanalista com consultório em Botafogo e Professora de Memória no Instituto Metodista Bennett para 3a idade.