Revista Êxito na Educação

Gaiolas ou Asas?

por Cynthia Dornelles


O filhote humano - dadas as particularidades de nossa espécie, que vão desde o fato de ser a única a se manter em posição vertical mesmo quando caça até o uso da palavra - tem um dos mais longos períodos de aprendizagem. Mesmo quando já sabe andar, mesmo quando a força dos seus músculos lhe permite que seja autônomo em sua sobrevivência, ele continua seu processo de educação ainda por muitos anos. Aliás, há que se pensar se este processo de educação de fato termina algum dia no mundo humano, sujeito a ter tudo transformado em questão de cinco anos.

Num tempo em que Carta Capital, uma das revistas mais sérias do Brasil sobre política, economia e cultura, dedica uma série de artigos sobre o “Vazio da Cultura - Ou Imbecilização do Brasil” (número 734, de 06/02/2013 - http://www.cartacapital.com.br/revista/734) questionando onde é que foram parar escritores como Guimarães Rosa ou Gilberto Freyre, ou um pintor feito Candido Portinari, historiadores como Raymundo Faoro, cronistas feito Nelson Rodrigues na contemporaneidade tupiniquim, é bastante oportuno se pensar sobre Educação e qual o papel do psicoterapeuta, psicanalista, psiquiatra e quantos mais “psi” possam existir nisto tudo.

"A principal meta da educação é criar homens que sejam capazes de fazer coisas novas, não simplesmente repetir o que outras gerações já fizeram. Homens que sejam criadores, inventores, descobridores. A segunda meta da educação é formar mentes que estejam em condições de criticar, verificar e não aceitar tudo o que a elas se propõe" nos diz Jean Piaget, um dos maiores pensadores do século XX.

Se os desejos inconscientes do homem são o seu destino, como nos diz Sigmund Freud, uma das funções do psicólogo seria a de facilitar o surgimento do desejo em cada um e que o sujeito lide com isto da forma como lhe for possível. Uma pessoa que assume seu estilo, sem dúvida pode se tornar alguém nos moldes que nos aponta Piaget. Neste sentido, a função dos “psi” em geral é uma função também educadora.

Rubens Alves tem um texto muito bonito sobre escolas e educação em que diz que há escolas que são gaiolas e há escolas que são asas.

 As escolas que são gaiolas existiriam para que os pássaros desaprendessem a arte do voo. Pássaros engaiolados são pássaros sob controle. Uma vez engaiolados, o seu dono pode levá-los para onde quiser. Pássaros engaiolados sempre têm um dono. Deixaram de ser pássaros, porque a essência dos pássaros é o voo.

 Escolas que são asas não amam pássaros engaiolados. O que elas amam são pássaros em voo. Existem para dar aos pássaros coragem para voar. Ensinar o voo, isso elas não podem fazer, porque o voo já nasce dentro dos pássaros. O voo não pode ser ensinado, só pode ser encorajado”.

Um bom “psi” - psicólogo, psicoterapeuta, psicanalista - encoraja o voo e assim possibilita que surjam tanto cidadãos quanto novos produtores de cultura.

Retrato de Cynthia Dornelles por Roque LabancaCynthia Dornelles é graduada em Ciências Sociais (UFRJ) e Psicologia (USU), pós-graduada em psicanálise pelo CEPCOP/USU, shiatsuterapeuta e autora de Amante Ideal (2000), Os 1001 E-mails - Sherazade Conta Histórias Eróticas a um Marujo Solitário (2003) e da antologia +30 Mulheres que Estão Fazendo a Nova Literatura Brasileira. Gravou 3 CDs independentes como cantora e compositora: Minha Aldeia (1995), Cynthia Movimentos (2000) e Onde a Música Não Pára (2002). Blog: lucidolimpidoproparoxitono.blogspot.com/