Revista Êxito na Educação

Superdotados: a educação para as altas habilidades

O Brasil já foi chamado de “crematório de cérebros” pelo senador Cristovam Buarque, em função do descaso com que tratamos o problema da educação entre nós. Segundo ele, incineramos em massa centenas de milhares de possibilidades de excelência intelectual e artística todos os dias, simplesmente impedindo que nossos Prêmios Nobel, nossos gênios e milhares de indivíduos super talentosos possam se desenvolver. Desta forma, obras-primas são destruídas antes que possam existir.

Num país onde crianças e jovens apresentam baixo nível de letramento, quem escreve um livro aos oito anos é considerado superdotado ou “gênio". Encontrar uma criança ou jovem com um interesse precoce para a leitura - para nós que somos pais e/ou educadores convivendo com tão graves distorções e desigualdades - nos enche de esperança no futuro, ainda mais se observamos uma extraordinária dedicação à literatura, demonstrando paixão pela escrita e talento acima da média. Nestes casos, trata-se claramente de uma alta habilidade, também chamada de superdotação.


Nichollas Schmidt (Foto: Marcello Marques)Este é o caso de Nichollas Schmidt, jovem escritor de 11 anos, com dois livros publicados, lançando em 2013 o terceiro intitulado “Gabriel e a Batalha de Dark Night” - além de uma meia dúzia de outros em elaboração. Aluno do Sexto Ano do Colégio Pedro II, Nichollas é um leitor compulsivo de livros como os de Harry Potter, Percy Jackson e outros. A leitura de Nichollas é hiperfocal - ele absorve intuitivamente a gama de recursos estilísticos e narrativos presentes nessas obras e os incorpora a seus próprios textos. Neste ano começou a frequentar uma Oficina de Criação Literária onde vários desses recursos foram pela primeira vez nomeados, sendo identificados em contos clássicos da literatura universal que sempre lia e discutia com interesse e maturidade excepcionais.

Seu nível de compreensão do que lê e interpreta é bem superior à média de sua idade. Sua mãe, Melissa Schmidt, psicóloga, nos conta que Nichollas aprendeu a ler aos dois anos, e que desde então se dedica com frequência ao exercício da leitura e da escrita.

Foi a excepcional qualidade de suas primeiras redações que levou seus pais e mestres a estimulá-lo para que as reunisse em livro. Aos oito anos publicou seu “O Monstro Assassino” e, no ano seguinte, iniciou a trilogia com “Gabriel e o Mistério de Dark Night”, onde um órfão de nove anos (a idade do escritor à época) vivia aventuras em um orfanato sombrio, com direito a magia, fantasmas e caveiras que falam.

Claro que é possível ponderar se se trata da questão de estimular qualquer criança, expondo-a desde cedo aos livros, se seus pais são leitores frequentes ou se a escola que frequenta dedica-se a projetos que incentivam a leitura e a escrita além dos níveis medíocres exigidos pelos parâmetros curriculares nacionais atuais. Todas as condições citadas, como parte de uma educação de qualidade, podem despertar talentos, desenvolver habilidades e produzir excelência em qualquer área.

Nichollas é um caso clássico de menino-prodígio, com excelente desempenho escolar - nota máxima na maioria das matérias - sem, contudo, deixar de jogar futebol com os amigos e dedicar-se a todas as atividades normais de sua idade. A paixão pela leitura e pela escrita é o que o diferencia e que podemos identificar como alta habilidade.

Segundo o Conselho Brasileiro para Superdotação, os superdotados ou portadores de Altas Habilidades podem ser classificados da seguinte forma:

  • por sua precocidade, quando desde criança o indivíduo apresenta alguma habilidade específica desenvolvida prematuramente em qualquer área (música, matemática, leitura etc). Um exemplo clássico seria Mozart que começou a tocar piano aos três anos, aos quatro aprendia peças com rapidez e sem professores e aos sete compunha e se apresentava regularmente pela Europa.
  • por sua genialidade, quando o indivíduo tenha legado à humanidade uma contribuição extraordinária. Como exemplo de gênios podemos citar o próprio Mozart, Einstein, Freud, Portinari, entre tantos outros mestres que deixaram sua marca na história. Tais indivíduos não necessariamente apresentam alguma alta habilidade precoce, como Mozart, podendo até mesmo ter sido um aluno medíocre em matemática, como Einstein, cuja genialidade notabiliza-se pelo conjunto da obra construída ao longo de sua vida.
  • por sua superdotação ou altas habilidades propriamente ditas. Estes indivíduos, tenham sido precoces, prodígios ou gênios, destacam-se em uma ou mais áreas, independente do fato de apresentarem deficiências em outras. É o caso de alguns autistas de alto rendimento, como portadores da Síndrome de Asperger, por exemplo. O jogador de futebol argentino Messi

O percentual de superdotados no Brasil gira em torno de 3,5 a 5% da população. Algo como uma entre cada vinte pessoas. As escolas brasileiras ainda estão longe de serem capazes de acolher as crianças ditas “normais”, quanto mais as “especiais”. E estas crianças “excepcionais” no sentido de suas altas habilidades convivem num quadro desalentador.

O Brasil ainda conta com 13 milhões de analfabetos, sendo que entre 2001 e 2011, “o domínio pleno da leitura caiu de 22% para 15% entre os que concluíram o Ensino Fundamental II (do Quinto ao Nono ano), e de 49% para 35% entre os que fizeram o Ensino Médio. Com Ensino Superior, 38% não chegam ao nível pleno.  De fato o número de analfabetos funcionais, ou seja, os que não apresentam esse nível pleno de leitura, equivale à população de dois Chiles”, escreve Stela Maris Bortoni de Figueiredo Ricardo, da Faculdade de Educação da UnB.